II PARTE

Educação

         Conforme me referi no texto supra, estava programada a escritura da Segunda Parte dessas rememorações da vida familiar.

         Esta Parte conterá comentários mais intimistas, reflexões sobre o processo educativo dos filhos. Escrevo-a voltado, em especial, para os meus filhos e as minhas filhas, que são os destinatários das reflexões e memória da ação e do testemunho contidod nesta Parte.

         Na I Parte deste livro, entre muitos outros temas, procedi a uma reconstituição histórica de duas famílias que se encontraram pelo meu casamento com a Edith. José Torquato e Maria (Nem), meus pais, emigraram do Ceará, no Nordeste Brasileiro, para o Pará; Martin Seligmann e Hilde, pais da Edith, emigraram da Alemanha para o Brasil e foram viver no Pará. Duas migrações, uma interna, a outra externa. Meus pais vinham de uma região assolada pela seca. Meus sogros fugiam do nazismo instalado em seu país. Deste encontro de pessoas migrantes e, especificamente,  deste casamento foram gerados os nossos filhos e as nossas filhas, que foram, objetos e sujeitos (neste caso, ao meu lado e da Edith) do processo educativo familiar que é desvendado nas páginas seguintes.

         Eu e a Edith, como pai e mãe, somos íntima e substancialmente responsáveis e participantes do processo educativo de nossos filhos. Porém, seria injusto não registrar desde logo que, neste processo, contamos com a presença e colaboração exemplar de minha mãe, que conosco morou, praticamente, durante todo o período em que nasceram nossos filhos/as e mais, sendo que, quando ela veio a falecer, o nosso filho José Jorge, o mais velho, estava com treze anos de idade e a Andréa, a mais nova, com quatro anos. Assim, mamãe nos ajudou, colaborou conosco ativamente na educação familiar de nossos cinco filhos, como avó que era, quase como uma segunda mãe, com sua afetividade, com seus cuidados, com seus conselhos, com seu dinamismo, com sua ação junto a eles. Sua presença ativa em casa junto aos netos foi, evidentemente, de uns por mais tempo, de outros por períodos menos longos, uma vez que ela faleceu aos 80 anos de idade, em 1974. Esta participação de minha mãe é muito importante em uma família na qual tanto o pai quanto a mãe são profissionais e trabalhavam fora (cf. registrado na I Parte). A Edith saía todos os dias para o trabalho, e eu, além dos trabalhos regulares do dia a dia, no exercício profissional, muitas vezes, viajei por períodos prolongados, mas estávamos sempre tranqüilos e seguros de que em nossa casa tudo correria bem. Nosso reconhecimento e gratidão a minha mãe fica aqui registrado.

         No texto acima já me referi à formação escolar que cada um dos filhos/filhas tiveram. Nesta Parte, referir-me-ei, basicamente, à educação familiar, a esse processo de íntimo relacionamento no lar, em que os filhos se desenvolvem física, psicológica e culturalmente e vivenciam seu processo de socialização internamente, mas, também, em contato com o mundo exterior, com a alteridade, com a sociedade. Esse processo, em seu conjunto   – no qual, também, foram sujeitos cada um de nossos filhos/as -,   desenvolveu-se com o concurso do máximo das nossas    – dos pais –   potencialidades, dentro dos limites humanos, considerando-se que nós próprios, eu e a Edith, participávamos ativamente da vida na sociedade e das circunstâncias naturais da vida de uma família, em que os pais são profissionais e, solidariamente responsáveis por sua manutenção. Eu, pessoalmente, procurei dedicar aos filhos/as o máximo de tempo disponível. Mas, salvo nos períodos, que foram muitos, em que eu estava viajando a trabalho (quase sempre em pesquisas), procurava estar em companhia deles/as em todas as oportunidades de que dispunha. Minhas viagens de trabalho se, por um lado, davam-me grande satisfação profissional, por outro lado, atormentavam-me por ficar longe da família. Na primeira dessas longas viagens para pesquisa de campo, após um mês, decidi interromper o trabalho e retornar a São Paulo, pois não suportava mais o distanciamento. Houve dois longos espaços de tempo em que morei fora de casa. Primeiro foi a partir de janeiro de 1985, ocasião em que fui trabalhar no Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, quando vivi em Brasília por um ano e três meses. Porém, nesta fase, vim a São Paulo o máximo de vezes que me foi possível. Inicialmente, vinha mesmo passar em casa todos os finais de semana, privilégio que não pude manter por todo o tempo. Muitas vezes, ia a S. Paulo via Ribeirão Preto, para estar com o Álvaro, que lá estudava. As viagens a São Paulo passaram a ter amplos intervalos entre elas. Mas, além de minhas idas a S. Paulo, foram estar comigo em Brasília, em diferentes momentos, a Edith e o Álvaro com a Carola e a Ingrid (mãe da Carola). Desta fase de Brasília, emendei para a minha estada em Belém, quando reassumi minha função da UFPA, ocasião em que nela fui reintegrado como professor em atividade. Para lá fui nos primeiros meses de 1986, tendo lá permanecido até outubro de 1988, quando me aposentei de forma legal e definitiva. Porém, nesta fase paraense, retornei à minha casa em S. Paulo no gozo de férias e de dois períodos de licença prêmio ou especial (seis meses cada) em diferentes ocasiões. Estiveram comigo, em Belém, a Edith (que, também, foi ministrar um curso no UFPA) e o Álvaro com a Carola.

         Estes dois longos períodos trabalhando longe de casa, em Brasília e, depois, em Belém, fizeram-me criar uma rotina de vida a sós, fato que me foi extremamente doloroso. É verdade que, no meu trabalho de antropólogo indigenista, que se deslocou muitas vezes às aldeias indígenas, as ausências de casa são reincidentes. Porém, nunca, em nenhum pesquisa, fiquei longe de casa por período tão prolongado. As circunstâncias de minha vida, conforme estão explanadas neste texto, me impuseram, por algum tempo esta forma desagradável de viver. Mas… estamos todos inteiros. A vida se rearruma, a felicidade se constrói e reconstrói de forma permanente no tempo e no espaço.

         Quando fui trabalhar em Brasília, minha filha mais nova, a Andréa, já estava com 14 anos de idade. Em função de minha decisão de acompanhar e participar ativa e substancialmente do processo educativo das crianças, além de outras razões muito importantes, conforme me reportei na I Parte, cheguei mesmo a adiar para muito mais tarde o meu projeto pessoal de pós-graduação.

         Ao longo de minha vida de pai, sempre que possível   – e isto ocorria com muita freqüência -,   eu levava os filhos/filhas às escolas básicas e aos cursos de línguas, onde ia buscá-los/as; procurava acompanhá-los/as, estar junto nas atividades educativas paralelas, e mesmo participar da natação de todos; no escotismo e no judô dos meninos; assistir o  ballet e o bandeirantismo das meninas; também realizávamos juntos os passeios dominicais e nas pequenas e grandes férias etc., assim como nas atividades caseiras. Festejávamos, com grande animação, todos os aniversários, ocasiões em que não faltavam os presentes e se reunia um bom número de amigos crianças e adultos.

         Registro algumas ações, aparentemente simples, mas que as considero, de fato, importantes, como as a seguir. Todos os anos, no mês de dezembro, eu promovia  gravações, em nosso gravador, por cada membro da família, crianças e adultos, de falas livres e espontâneas e sem planejamento de conteúdos; eram referidas, por cada um, suas impressões sobre a vida no ano que chegava ao fim. São documentos da maior importância sobre nossa vida e sobre nós na vida. Outra: no mesmo mês, anualmente, eu fazia as medições das alturas das crianças, a-fim-de acompanhar seus crescimentos. Ainda outra: tínhamos uma máquina filmadora; filmei aniversários, passeios, viagens da família. As filmagens foram feitas até que não mais encontrei na praça filmes para a máquina, que envelhecera. Já estando os filmes “antigos”, a Andréa procurou salvá-los, juntando o que deu em uma cópia nova. Mais: cada filho/a, teve seu álbum no qual fizemos registros minuciosos desde os nascimentos, marcando os processos de desenvolvimento de cada um, e todos foram fotografados muitas vezes desde quando ainda estavam na maternidade. Cada qual teve seu álbum de fotografias. Todos nós, durante a infância e em parte da adolescência dos filhos/as, procuramos realizar as mais diferentes atividades sempre juntos, reunidos, toda a família.

         Com relação às escolas e às diversas atividades educativas ancilares, eu era um acompanhante e um observador responsável e sempre preocupado com o sucesso de cada um/uma, nos estudos, no aprendizado, nos jogos etc. Aos poucos, à medida que os filhos/as, cresciam, paulatinamente, fui deixando de ser o pai mentor, planejador, orientador e “coordenador”, passando, com sabedoria, a cada passo, a ser o pai-amigo (que também já era antes), o pai-companheiro (que já era), que acompanhava o desabrochar da maturidade livre de cada um dos filhos e filhas.

         Como eu disse, eu e a Edith atuamos lado a lado na condução dos processos educativos de nossos filhos e somos conjuntamente solidários, responsáveis pela orientação educativa que imprimimos a esses processos e pelos resultados concretos obtidos, o que pode ser visualizado hoje já em uma perspectiva diacrônica, tendo em vista a trajetória de vida de cada um/uma, de vez que os filhos e as filhas estão adultos/as, senhores de si, cada qual conduzindo suas próprias vidas e responsavelmente integrados em suas famílias. O processo familiar de educação de nossos filhos/as, desde o nascimento até se autonomizarem como adultos, é a expressão do que nós os pais somos e fomos capazes de concretizar, evidentemente, circunscritos pelos limites humanos de cada um de nós e com a contribuição natural das diferentes escolas em que estudaram e das outras instituições em que atuaram.

         Devo registrar o que é sabido: não somos nem nunca fomos ricos, ou seja, o que ganhamos foi sempre o necessário e suficiente para vivermos e propiciar aos filhos/as vida e formação com dignidade. Os tivemos com responsabilidade.

         Porém, é necessário que eu diga que abri esta Parte destas minhas lembranças para dar a mim a oportunidade de fazer algumas rememorações e reflexões sobre a minha ação pessoal neste processo intimamente participativo de orientação e acompanhamento da formação integral de nossos filhos. Eu e a Edith tínhamos convicções muito bem estruturadas sobre como deveríamos orientar a educação de nossos/as filhos/as, idéias adequadas às diferentes idades na evolução bio-psico-social de cada um/uma. Idéias sobre amor e carinho, sobre proteção e segurança, sobre nossa presença junto a eles/as, disponibilidade para eles/as, abertura ao diálogo, atenção, alimentação, cuidados higiênicos e com a saúde como um todo, companheirismo, respeito mútuo, busca de ausência de autoritarismo de nossa parte, educação escolar, práticas de esportes e outras atividades educativas, tudo isto em um ambiente em que procurávamos nos relacionar com eles/as igualitariamente, havendo amor recíproco e muita afetividade. Propiciamos a eles/as brincadeiras, brinquedos, livros, bicicletas, diferentes formas de lazer, jogos, passeios, atividades ao ar livre, encontros com outros parentes e com outras famílias amigas, para que as crianças/adolescentes convivessem e compartilhassem de atividades comuns, em um processo de socialização saudável. Incentivamos o hábito da leitura de bons livros. Em nossa casa sempre houve abundância de livros infanto-juvenis e para adultos. Os filhos/as, na infância/adolescência, participaram de aulas de arte, de pintura ministradas pelo pintor Guto Lacaz, que, contratado por nós, vinha a nossa casa para ministrá-las. Em alguns períodos, participaram de aulas de instrumentos musicais (flautas, violão). As meninas tiveram aulas de pintura em objetos de cerâmica de barro. Os cânones culturais sempre foram cultivados em nosso meio familiar. Assim, sempre valorizamos e incentivamos a conquista de saberes, de conhecimentos, assim como, o desenvolvimento das capacidades inatas dos filhos/as. Criamos os filhos/as habituando-os/as a se comportarem segundo princípios éticos, morais, que nós valorizávamos (e valorizamos) nas atitudes pessoais e no convívio com as demais pessoas em casa e no âmbito da sociedade, no contacto com a natureza, valorizando a solidariedade, a justiça, a fraternidade, a liberdade, a paz e a honestidade como valores absolutos para o ser humano. Foram orientados a agir na vida em sociedade tendo sempre em vista objetivos claramente definidos e a se empenharem com perseverança, persistência e com ânimo pleno para atingi-los. Abríamos seus olhos para a realidade concreta da vida em sociedade, o bem e o mal, a necessidade de autodefesa sem agressividade, mas, também, o vigor e o ânimo para a concretização de projetos de vida, procurando vencer os obstáculos que podem ser interpostos no percurso vital e conquistando objetivos fundamentais para o êxito como seres individuais e como seres sociais.

         Eu, o motorista da família, em todos os finais de semana, nos fins de semanas prolongados e nas férias, estava com o nosso carro na rua, nas estradas, em passeios, pic-nics, excursões, acampamentos, hospedagens em hotéis de praias ou de montanhas ou de cidades turísticas. Em São Paulo, íamos aos parques de grande beleza natural, como o Ibirapuera, a Aclimação, o Parque do Ipiranga, o Horto Florestal, o Jardim Botânico, o Zoológico e, também, a parques de diversões na cidade ou ao de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo; ou então, saíamos da cidade para rever outras cidades ou procurando conhecer novos lugares. Eu tinha prazer em estar dirigindo nas estradas em companhia de minha família. Litoral norte, litoral sul (Suarão; estivemos em uma aldeia de índios Guarani); interior do Estado; Rio de Janeiro; estação de águas em São Lourenço, MG; as viagens de carro por todo o sul do país, até o Rio Grande do Sul, acampando ou em hotéis; a viagem pelo Brasil de ônibus (e de avião), em 1977, até o Pará, via Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí e Maranhão, voltando por Brasília. As viagens pela Belém-Brasília. No Pará, nossas idas a Mosqueiro, a Salinas, a Bragança, a Santa Isabel. Muitas aventuras pelos espaços imensos de nosso país ao longo da vida.

         Em nossa convivência, em casa e fora de casa, nós dois, os pais, procurávamos, ao máximo possível, criar um ambiente alegre, descontraído. Sempre em casa havia jogos, TV, muitos brinquedos e não faltavam os/as amigos/as; e, também, os cachorros de estimação. Quando os/as filhos/filhas, eram pequenos, não medíamos esforços para propiciar-lhes atividades lúdicas adequadas, dentro de casa ou fora, e eu participava de muitas delas. Pelo Natal, havia a brincadeira do Papai Noel. Sem perturbar o imaginário e a fantasia naturais da infância, imprimimos uma educação que lhes fazia ver a verdade e a realidade dos fenômenos da vida tanto no plano concreto da natureza, das pessoas, dos fatos da sociedade, como no plano transcendental. Procuramos, no convívio dos filhos/as conosco os pais, nas nossas conversas, contribuir para desenvolver neles/as o máximo de racionalidade nas formas de pensar e de se comportar, de compreender as pessoas e o Mundo; também, o pensamento lógico, e o culto da verdade como um compromisso ético. Não tenho dúvida de que buscamos criá-los/as da melhor maneira possível e de que fomos capazes. Demos tudo de nós. Procuramos desenvolver nos filhos/as a vontade e o prazer de aprender, da construção de saberes e de novas descobertas, das conquistas e vitórias, mesmo das experiências do espírito de aventura, desenvolvendo a intuição e a inventividade, abrindo os caminhos do Mundo de uma forma objetiva e realista, sem falsas ilusões. Hoje sabemos: os filhos/filhas foram sábios aprendizes, conscientemente e na espontaneidade do convívio. As viagens que todos e cada um dos filhos/as, empreenderam pelo Mundo, ainda muito jovens, com responsabilidade e sabedoria (tendo muitas vezes que trabalhar, para ganhar o sustento), e a vida de cada um, hoje, como adultos, são provas incontestes do que estou afirmando.

         Eu era (e sou) um pai em que os meus filhos e as minhas filhas tinham (e têm) absoluta confiança. Minha vontade, minhas opiniões, meus pensamentos, meus conselhos eram recebidos como orientação de quem tem a sabedoria. O amor paterno e materno era o substrato em essência do convívio familiar, de nosso entendimento recíproco. Lembro que, algumas raras vezes, eles/as, estudantes do curso primário, me pediram para orientar na elaboração de trabalhos escolares de casa e eu me recusei, dizendo que não devia fazê-lo, que os trabalhos  deviam ser feitos pelo próprio esforço de cada um. Esta minha atitude era assumida com convicção; porém, a par da autenticidade deste meu comportamento, eu tinha uma preocupação: dada à distância no tempo de meus estudos, eu temia interferir ajudando a elaboração de trabalhos e cometer erros. É verdade que eu tinha obrigação de saber o conteúdo dos exercícios, como os de matemática, que os professores passavam para casa; afinal eu havia passado pelos cursos primário, secundário e era formado. Mas, sentia-me inseguro em matemática.  Não sei se meus filhos e minhas filhas, hoje, compreendem esta situação em que eles me deixaram envolvido, em tão poucas ocasiões. Se não, está explicado. Eu não queria ser o mestre, o professor, mas, sim, o pai vigilante que acompanhava o aprendizado de cada um. Na realidade, cada um sempre fazia os exercícios de casa por si mesmos corretamente, como bons estudantes que eram.

         Lembro com saudade e emoção de quantas vezes eu acordei, de manhã cedo, as crianças, alegremente em cima da cama me chamando, me abraçando. Lembro, também, que, na infância e no início da adolescência, eles e elas, muitas vezes, chegavam  em casa das escolas trazendo para nós trabalhos manuais de alguns dos quais constavam “para papai” ou “para mamãe”. Vinham com tanta alegria e afetividade entregar-nos; recebíamos as lembrancinhas com muito carinho. Com muito contentamento, registro ainda que traziam lembranças-presentes para mim quando, já mais velhos, voltavam de viagens.

         E devo registrar, com satisfação, que estive ao lado da mamãe, no interior da sala de partos, nos nascimentos de cada um dos filhos e filhas. Vi as cabecinhas aparecendo e a chegada total para a vida neste Mundo exterior de todos eles e elas.

         Porém, as atitudes de consideração, carinho e afetividade de meus filhos/as     para com este pai agora idoso continuam presentes sendo eles/elas já adultos, muito adultos. Registro aqui o fato da maior importância de quando fiz a cirurgia no coração; todos os meus filhos e filhas estavam no hospital me acompanhando, inclusive os que residem no exterior, que vieram para São Paulo a fim de estar comigo, dando-me muita força, segurança e confiança naquele momento de grande gravidade. O Álvaro, sendo médico, acompanhou a cirurgia dentro da sala de operações ao meu lado. Meus agradecimentos a cada um e a cada uma.

         Eu e Edith esforçamo-nos para criar, em nossa casa, um ambiente saudável de convívio familiar. Vocês sempre, até hoje, tiveram presentes o pai e a mãe em uma família constituída.  Eu e Edith tivemos, ao longo da vida, nossos desentendimentos. Em que casal isto não acontece? Eles foram sempre superados com sabedoria. Eles não afetaram negativamente a formação de nossos filhos. Eu sou originário de uma família católica e a mãe, de uma família judaica. Na realidade, não praticamos qualquer religião. Não demos formação religiosa aos filhos e filhas; mas, procuramos propiciar-lhes   princípios éticos para o comportamento individual e para a vida em sociedade, com nossos exemplos pessoais de vida e com nossas palavras, em nossos diálogos.

         Muito eu já disse, na I Parte, sobre as atividades escolares formais e outras práticas educativas de que nossos filhos/as participaram. Não vou repetir. Mas, quero registrar que nos preocupou sempre oferecer-lhes boas escolas e outras atividades educativas que efetivamente complementassem nossa ação educativa em casa e que contribuissem para a formação bio-psíquico e sócio-cultural equilibrada e adequada aos  princípios que valorizávamos e que considerávamos apropriados na evolução, na socialização e na preparação para a vida de cada um. Era a preparação para a vida,  vivenciando intensamente e com muitos estímulos a própria vida em sociedade. À luz dessas idéias, dessas práticas e dessas experiências, eles e elas cresceram, se desenvolveram e ficaram aptos a ingressar na sociedade participando com autonomia do complexo social, estando prontos para os embates da vida, como estudantes, como profissionais, como cidadãos responsáveis no lar, no país e no Mundo, como constituidores de famílias. É evidente que o processo educativo que eu e Edith concretizamos junto a eles e elas estava certo, correto e teve pleno êxito. É suficiente olhar, ver a trajetória de vida de cada um/uma.

         Eu, pessoalmente, sentia (e sinto) meus filhos/as, desde que nasciam, como partes de mim. Era (é) como se fosse cada um extensões de meu cérebro, de meu coração, de meu próprio corpo, de meu ser. É claro que, na medida em que eles e elas se tornaram adultos, senhores de si mesmos, passando a ser, além de filhos/as, maridos/esposas e pais/mães, esta sensação de pertencimento mesmo físico assumiu um caráter ainda verdadeiro, porém que ficou mais fortemente em um plano de saudosa e querida memória dos tempos da infância e da adolescência.

         Eu era (e sou) um pai afetuoso, carinhoso, amoroso com meus filhos e minhas filhas, e sentia (e sinto) o maior prazer e satisfação de estar em companhia deles/as em grupo e com cada um/uma. A mãe chegava do trabalho, diariamente, e logo estava, afetuosamente, junto aos filhos, fazendo tudo o que era necessário na rotina do decurso dos dias e, ao desenvolvimento de cada um com equilíbrio e saúde. Ambos, eu e a mãe, dedicamos a eles/as o máximo do tempo de que podíamos dispor.

         Já fiz uma síntese de tudo que considero bom, positivo na nossa (minha e da Edith) vida como pais, no processo educativo de nossos filhos. Porém, eu não posso deixar de registrar que, ao lado das coisas boas, cometi alguns deslizes, como passarei a narrar. Naquele tempo, quando eles/as eram crianças, eu, muitas vezes, confesso que procurava atuar procurando levá-los/as a se comportarem como se fossem adultos, ou seja, como adultos segundo os padrões humanos que eu valorizava (e valorizo). Confesso que sinto, ao refletir agora sobre o passado, que, em algumas vezes, eu exagerava nessa minha expectativa ou vontade, nessas minhas ações. Não tenho critério, hoje, para avaliar se esse meu comportamento de pai estava totalmente errado, consideradas as idades em que eles se encontravam; eram crianças.  Esta minha atitude educativa não foi premeditada, planejada, pois ela não fazia parte de convicções pedagógicas minhas ou de um projeto de educação. Estou certo de que ela não lhes causou nenhum mal. A vida provou esta minha assertiva. Mas, não posso nem devo ocultar que estou considerando que essa minha atitude em face de meus/minhas filhos/as, de qualquer maneira, pela força ou ênfase com que ela se impunha a mim, foi, em verdade, um erro que cometi. Eu via estas situações com espírito crítico, porém, não conseguia controlar-me, evitando-as. Também, tenho que registrar neste espaço que, algumas vezes, perdendo o autocontrole,  dei palmadas, principalmente, nos filhos. Lembro que, em nenhuma ocasião em que isto aconteceu, meus/minhas filhos/as haviam praticado qualquer ação comportamentalmente grave, que justificasse uma punição, principalmente, física. Recordo, muito bem, que a causa de meu descontrole, na quase a totalidade dos casos em que isto aconteceu, foi em decorrência de brigas entre eles/elas, ou então porque um mais velho, mais forte havia batido no outro menor, mais fraco. Eu estava errado. Enfatizo, agi desta maneira, em todas as ocasiões em que ocorreram, por descontrole emocional e, exatamente, neste se encontrava a causa das punições. O castigo físico não constava de nossos   – meus e da Edith –   cânones educativos. Não achávamos que esta era a melhor forma de corrigir um ou outro ato praticado pelos filhos que nos desagradassem. Portanto, errei, repito. Não posso dizer que eu, algumas vezes, os puni dessa forma por excesso de amor que lhes devotava, ou em nome desse sentimento. Considero que isto seria uma contradição injustificável, um contra-senso, um paradoxo. Mas, posso dizer que, lamentavelmente, eu, algumas vezes, os puni assim, porém, como se estivesse punindo a mim mesmo. Trata-se de uma questão psicanalítica. Foi profundamente injusto. Como eu poderia constatar em meus filhos/as qualquer comportamento que lhes fizesse merecer uma punição como essas, se eu os/as via como crianças modelares, exemplares, que realmente eram? Como eu os podia punir dessa maneira, se eu me considerava um pai que, em relação aos meus/minhas filhos/as, não tinha o direito de errar, de vez que me sentia um pai-educador paradigmático? É que a vida é, indiscutivelmente, complexa e todos os homens são suscetíveis de cometer atos impensados. Não acredito que esta minha atitude, naquele tempo, tenha provocado seqüelas ou traumas de qualquer gênero em nenhum deles. Penso mesmo que esse meu exemplo isolado, em particular (em meio a tantos acertos), não é uma prática adotada por nenhum/nenhuma de meus/minhas filhos/as com relação aos seus próprios filhos/as. Uma repreensão e diálogos, conselhos, orientações são, na prática, muito mais eficazes e, também, mais adequados no comportamento de quem quer educar e corrigir. Espero que meus/minhas filhos/filhas tenham desculpado seu pai. Logo me arrependi. Talvez eles/elas se lembrem! Não posso, não tenho como deixar de registrar este sentimento meu, neste texto, que é também um documento de minha memória, de minha vida afetiva, de meus sentimentos e de meu transcurso como pai. Estou fazendo, também, autocrítica nesta revisão de minhas ações[1].

         O processo educativo que eu co-orientei, lado a lado com a Edith, tem a marca do amor paternal/maternal. Não tenho nenhuma dúvida de que, no seu conjunto, acertamos. Meus filhos/filhas, que hoje são exemplos de profissionais dedicados aos seus trabalhos (conforme está registrado na I Parte), de maridos/esposas e de pais/mães responsáveis e plenos de amor aos seus filhos/as, são causas de minha, de nossa felicidade e podemos olhar para eles com orgulho de pais cônscios do êxito alcançado.

          Ainda que este depoimento, que é de minha inteira e particular responsabilidade, pareça, em alguns momentos, pretender mostrar que nós teríamos a pretensão de ser pais extraordinários, super-pais, na realidade, eu não estou interessado em categorizações. Registrei, aqui, no que tange à nossa família, apenas e só os fatos da realidade e estes fatos são construções coletivas nas quais estamos compartilhando nós os pais e nossos filhos e filhas, como sujeitos constituidores. Esta é a verdadeira história de nossa família. Nós nos desincumbimos, na vida, como pai e como mãe, com objetividade, responsabilidade, amor e uma réstia de sabedoria. Neste caminhar, estivemos e estamos lado a lado, nós, pai e mãe, de mãos dadas com vocês, filhos/filhas, no processo de desenvolvimento e amadurecimento saudável de todos e de cada um de nós    – pais e filhos/filhas –   ao longo da vida, percurso que prossegue com tranqüilidade e maturidade, ampliando-se com o desabrochar desses novos e queridos personagens, nossos/as netos e netas e bisnetas, que chegaram.

(II Parte: 27/5/2007 sendo esta a data da 2ª edição do texto como um todo)(Data da 3ª edição revista e aumentada: 25/1/2008)

(4ª edição revista e aumentada: Novembro de 2008). (5ª edição revista e aumentada: junho de 2009)


[1]  Pensando com Freud, eu digo que, naquelas minhas atitudes exigindo comportamentos de adultos em meus/minhas filhos/filhas crianças e naqueles meus atos punitivos, meu alterego tentava interferir me reorientando segundo valores que estavam sedimentados em meu ego, mas eu não conseguia, disciplinadamente, ser fiel a eles; meu ego agiu contrariando esses valores, que vinham à minha consciência, mas que, mesmo assim, eu os desobedecia. Em conseqüência, senti-me e ainda me sinto arrependido do que fiz e carrego comigo um punitivo sentimento de culpa. Mas…, o tempo não volta atrás!… Agradeço a Freud, por me possibilitar a compreenção e ter consciência desta situação vivida, eu diria, em uma introjeção psicoterápica! Mas, como eu disse acima, o ocorrido naquele tempo não foram episódios com qualquer gravidade. Meus filhos estão aí, felizes. Eu, sim, como pai, de mim para mim mesmo, é que não consigo subir o monte se não como Sísifo…

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