A – A Grande Família Emigrante

Quem primeiro emigrou, em minha família consangüínea, nuclear e originária, foi minha mãe   – Nen (Maria) –   que, entre julho de 1897 e julho de 1898   – mais provavelmente, no primeiro semestre de 1898, mudou-se com seus pais e dois irmãos da cidade de Missão Velha, no sertão do Ceará, para o Pará. Nesta cidade vivia sua família. Minha mãe me disse: “Vim do Ceará para o Pará com três anos, ainda não tinha quatro”. Minha mãe nasceu na cidade de Missão Velha no dia 16 de julho de 1894 (quanto ao ano, cf. seu depoimento pessoal). Quando viajou para o Pará, como se vê, minha mãe tinha três anos de idade completos. Não sei se ela não sabia, mas, em sua maneira de ser calada, nunca me disse a razão da migração de sua família. Ela não poderia saber por testemunho pessoal por ter ido com tenra idade, mas poderia ter ouvido mais tarde de seus pais. Suponho que as causas da mudança tenham sido as dificuldades na vida da família decorrentes da seca no sertão cearense, onde viviam. Meu avô Eliseu com sua mulher, minha avó Santá, e seus filhos fugiram da seca, provavelmente, na expectativa de que iriam começar nova vida no Pará, recuperando a paz e a tranqüilidade para a família. Mas, não foi bem assim. Meu avô Eliseu teve que trabalhar muito e duramente como operário na função de pedreiro empreiteiro de obras para manter sua família, que crescia a cada ano. Minha mãe teve 19 irmãos; nem todos chegaram à idade adulta. Conheci oito dos irmãos de minha mãe, que era a primogênita. Meu avô, um afeiçoado ao estudo da História Sagrada, se chamava Eliseu Mathias Sampaio e minha avó, Francisca (Santá) Leite Sampaio. O nome de solteira de minha mãe era Maria Leite Sampaio[1].

Sei que meu avô trabalhou na construção de várias estações da Estrada de Ferro de Bragança – EFB, ferrovia que veio a fazer a ligação entre Belém, a capital do Estado, e Bragança, cortando a Zona Bragantina, no Nordeste do Pará. Entre as estações construídas por meu avô e sua equipe estavam a de Santa Isabel e a de Anhanga, cidade e vila em que a família morou, entre outras, ao longo da estrada. Certamente trabalhou em outras cidades e vilas, mas veio a fixar-se definitivamente em Santa Isabel. Nesta cidade, mamãe passou sua infância e adolescência, chegando à idade adulta. Aí, estudou no Grupo Escolar no qual completou o curso primário (quatro anos).  Nesta época havia mais dois anos complementares aos quatro anos do curso primário, mas estes dois anos não funcionavam na escola de Sta. Isabel. Ela se orgulhava muito de ter sido aluna do Diretor do GE, professor Sílvio Nascimento, docente que, muitos anos depois, já idoso, veio a ser meu professor de História do Brasil no curso ginasial, no Colégio Estadual “Paes de Carvalho”. Mamãe escrevia e fazia contas com facilidade e corretamente (havia feito um bom curso primário, como era normal acontecer no seu tempo); gostava de escrever cartas, principalmente, para os filhos. Um de seus passatempos prediletos era a leitura de romances. Minha mãe era de “prendas domésticas”, como se dizia antigamente (depois, as pessoas que se situavam nesta categoria domiciliar passaram a ser classificadas como “do lar”). Porém, aquela primeira denominação era mais apropriada para os casos em que as donas de casa eram competentes e tinham habilidades em diversas artes domésticas, como era o caso de minha mãe, que cozinhava excelentes pratos caseiros, era doceira, licorista e, como costureira, confeccionava roupinhas para crianças, principalmente para meninas. Também confeccionava bonitos e confortáveis pares de chinelos almofadados com algodão e tecido, e com solados de corda. Os doces, parte dos chinelos e os vestidinhos eram vendidos, o que garantia a ela certa renda pessoal, com a qual veio, mais tarde, a ajudar financeiramente meu pai a quando da compra da casa.

Meu pai, José Torquato, com dezoito anos de idade, viajou do Ceará para o Pará. Foi a convite de seu tio João Pedro, que era sitiante no sertão cearense e que comerciava produtos agrícolas. Partiram do porto de Mucuripe em viagem marítima para Belém levando gêneros para a comercialização.

Meu pai, José Torquato da Silva, nasceu no dia 7 de maio de 1883 (quanto ao ano, conforme ele me disse muitas vezes), em Sobral, uma cidade desenvolvida localizada no sertão do Ceará, que rivalizava com a capital do Estado. Sua mãe, minha avó Maria do Carmo, faleceu por ocasião do parto. Ele foi criado por sua avó materna, que passava tempos ora em companhia de seu filho João Pedro no sertão, ora com o filho Vicente, na cidade de São Benedito, no alto da Serra Grande ou Serra do Ibiapaba, que faz o limite entre o Ceará e o Piauí. Assim, meu pai passou a infância e a adolescência morando períodos no sertão, na casa de seu tio João Pedro, e outros tempos na casa de seu tio Vicente, na serra. Quando morava em companhia deste último, iniciou seus estudos primários na escola cujo diretor era um professor extremamente incentivador e motivador da aprendizagem, mas, também, muito rigoroso quanto à disciplina e à exigência de aproveitamento nos estudos. No curso primário meu pai estudava em um livro básico intitulado “Mário”, uma pequena enciclopédia didática. Quando eu estava no curso ginasial, ainda foi possível ao meu pai comprar para mim um exemplar desse livro e tive a oportunidade de verificar que nele as matérias (português, matemática, história, geografia, ciências etc.) eram tratadas com a mesma profundidade que elas eram ensinadas no curso em que eu me encontrava e eu estudava em um dos melhores colégios de Belém. Em face de viver ora na cidade, ora na fazenda, no sertão, os estudos de meu pai não foram além do terceiro ano primário. Por esta circunstância, ele se tornou um autodidata, desenvolvendo por esforço próprio sua capacidade de escritura e leitura, bem como sua atitude crítica ante as idéias, o pensamento humano e o Mundo. Tornou-se um ávido leitor de romances e de jornais e revistas, gostava de ler e de escrever poesias e era entendido nas artes da pintura e do desenho, tendo pintado muitos quadros, em geral paisagens do sertão cearense ou da Amazônia. Pintava sobre tela ou papel a óleo ou aquarela. Como desenhista, fazia retratos, como o que tenho na sala de minha casa, o busto de meu avô paterno Joaquim. Meu pai era um severo crítico da arte moderna de cujos cânones estéticos discordava. Quando eu era criança, meu pai me levava às exposições de pinturas que se realizavam em Belém (lembro dos nomes de alguns pintores: Leônidas Monti, os irmãos Pinto, Ruy Meira e outros entre os quais o meu professor de desenho no CEPC, Ângelo Nascimento) e sempre fazia comentários a propósito das técnicas empregadas pelos pintores. Gostava de ler os romancistas franceses das escolas romântica e realista, tais como Flaubert, Balzac, Victor Hugo, Alexandre Duma Filho etc., e, entre os brasileiros, principalmente, José de Alencar, de cuja obra leu tanto os romances indianistas quanto os romances de costume. A memória de meu pai era privilegiada: ele era capaz de recitar, de memória, longos trechos do “Iracema”, do José de Alencar, poesias de Gonçalves Dias, de Casimiro de Abreu e, diversos poemas de Castro Alves, como o “Vozes d´África”. Lembro: recitação que fazia do romancista romântico indianista – “Verdes mares bravios de minha terra, onde canta a jandaia nas frondes da carnaubeira!” // “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. / Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. / O favo do jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.”; recordo, também, de sua recitação do romântico “poeta dos escravos”: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? / Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes / Embuçado nos céus? / Há dois mil anos te mandei meu grito, / Que embalde desde então corre o infinito… / Onde estás, Senhor Deus…” . Na velhice, meu pai ainda pintava. Em uma ocasião, surpreendi-o compondo um poema sobre o entardecer, com forte sentimento lírico e religioso, o qual ilustrou com um desenho de uma paisagem bucólica. Este poema ele me deu.

Meu pai, também, era um afeiçoado da matemática e era capaz de fazer corretamente operações complicadas e, cálculos “de cabeça”, como se dizia à época. Elaborava os relatórios financeiros e as estatísticas do movimento operacional da repartição de que era chefe. Quando trabalhou no comércio, procedia a contabilidade da casa de aviamento em que trabalhava e era de sua responsabilidade elaborar os cálculos de juros sobre débitos por fornecimentos realizados a longo prazo.

Meu pai e minha mãe eram ótimos contadores de estórias para crianças. Papai, como bom sertanejo cearense, tinha predileção por narrar ocorrências nordestinas, quase sempre reais e que se baseavam em sua experiência de vida; expunha, às vezes, lendas e mitos do Nordeste e da Amazônia. Mamãe contava contos de Grimm com um colorido especial. Eu, na infância, deliciava-me ouvindo ora um ora o outro. Meus filhos ainda conheceram a aptidão narrativa da avó.

Os pais de meu pai se chamavam Joaquim Torquato da Silva e Maria do Carmo Silva. Meu avô paterno, um ex-seminarista que deixou o seminário para casar, era estabelecido com sua família em Sobral, no sertão cearense, onde era proprietário de uma sapataria. Ele casou três vezes, sendo que o meu pai nasceu do segundo matrimônio. Ainda conheci, em uma de minhas estadas em Sobral, a mais nova irmã do meu pai, minha tia Maria, que nascera do terceiro casamento de meu avô. Meu pai me disse que o pai de seu pai, portanto, seu avô paterno e meu bisavô, “era um português que era casado com uma índia”, do que decorre que eu, pela linhagem paterna, sou bisneto de português e de índia (lamentavelmente, não posso saber a que etnia ela pertencia).

Meu pai, aos dezesseis anos, ainda no Ceará, trabalhou como revisor na redação de um jornal. Com esta idade, foi para Sobral morar com seu pai. Mas, provavelmente, por não ter vivido em casa de seu pai durante o período de sua formação e socialização, não veio a se dar bem com ele e, principalmente, com sua madrasta. Foi vivendo esta situação familiar que ele aceitou o convite de seu tio João Pedro para viajar ao Pará, aonde chegou com dezoito anos de idade, no alvorecer do Século XX. O sertanejo José Torquato, muito jovem como era, se encantou com a cidade e com a vida em Belém, que, à época, era o maior centro de atividades econômicas da Região Amazônica e vivia a efervescência social e artístico-cultural da belle époque paraense, assim como, a cidade se encontrava em um período dinâmico de inovações, mudanças e construções de grande valor e beleza arquitetônicas e urbanísticas, em pleno período áureo da borracha. Quando seu tio, tendo feito seus negócios, chamou-o para voltarem ao Ceará, ele havia decidido permanecer no Pará e prometeu ao tio que lhe acompanharia no retorno ao seu Estado natal na próxima viagem que ele fizesse ao Pará. Ele jamais cumpriu esta promessa, pois, nunca voltou ao Ceará.

Só, muito jovem e sem o apoio e o aconchego da família, meu pai teve que lutar como um bravo para sobreviver. A primeira tentativa de trabalho foi na oficina da estação de Belém da Estrada de Ferro de Bragança, onde, para começar, lhe mandaram entrar em um fosso sobre o qual se encontrava uma máquina de trem, onde deveria fazer a limpeza das partes baixas da máquina. O calor era tão intenso, que ele saiu do lugar e abandonou o serviço. Foi, então, trabalhar na construção de uma barragem no igarapé Água Preta, Utinga, na floresta periférica de Belém, no, hoje, bairro do Marco. Um trabalho braçal muito pesado. Ficava hospedado no galpão dos trabalhadores, mas não se dava bem com estes, que, como dizia, eram mal educados, rudes, grosseiros. Foi quando seu chefe percebeu que ele era uma pessoa educada, “de família”, alfabetizada e tirou-o do trabalho braçal, designando-o para a função de apontador, uma espécie de fiscal do trabalho. Em seguida, foi para um seringal, na Região das Ilhas, na floresta amazônica às proximidades da vila Antônio Lemos, convidado pelo seringalista proprietário, sr. Vicente Pontes, que, mais tarde veio a ser seu compadre, padrinho de um de meus irmãos (quando eu era criança, estive com meu pai visitando este senhor, que já se encontrava muito idoso e doente). Neste serviço não trabalhou como seringueiro na coleta do latex das seringueiras. Sua função era de gerente do barracão, a loja em que eram feitos os aviamentos de gêneros aos seringueiros. Ele fazia a contabilidade referente aos fornecimentos a cada trabalhador e calculava os juros que cada um teria que pagar com o produto da coleta da seringa. Neste trabalho ficou dois anos, após os quais voltou a Belém e foi trabalhar integrando a equipe do meu (futuro) avô Eliseu que, então, estava construindo a estação (velha) da EFB da cidade de Santa Isabel. Meu pai era encarregado de instalar as obras de arte metálicas (“art décor” com seus arabescos) vindas da Inglaterra, que faziam a decoração do prédio.

Foi quando estava neste trabalho que, um dia, viu passar por perto da obra uma jovem senhora grávida vestida de roupa de luto: vestido longo até os pés, mangas compridas, gola alta. Papai achou a moça muito bonita, ficou impressionado com aquela figura de mulher e perguntou aos companheiros de serviço quem era aquela pessoa. Disseram-lhe, então, que se tratava da uma cunhada do chefe da equipe, Eliseu; disseram mais que seu marido   – sr. Hugo Cahet –  falecera havia pouco tempo deixando-a grávida e com dois filhos, e que se chamava Vitória, apelidada de Dorinha. Três meses depois do nascimento da criança   – cujo nome de batismo foi Huga (Huguinha) -, meu pai veio a se casar com Dorinha. Ela era irmã da esposa de Eliseu, Francisca, cujo apelido era Santá (cf. acima). Os outros dois filhos de Dorinha do seu primeiro matrimônio se chamavam Oscar e Rui. Com o casamento, José Torquato tornou-se concunhado de Eliseu e padrasto de Oscar, Rui e Huga.

Deste primeiro casamento de meu pai, nasceram: Olga (Olguinha), em Santa Isabel, a 9/10/1909; Ophir, em Santa Isabel, a 13/9/1911; as duas gêmeas prematuras Raimunda Ondina e Maria Oneide (1913), que viveram muito pouco; Odette, em Bragança, a 4/2/1914; Oneide e Onilde (gêmeas), em Castanhal, a 9/5/1919. Onilde viveu apenas seis meses. Elas e o Ophir    – mais tarde, com o meu nascimento –    vieram a ser minhas irmãs e meu irmão, conforme narrarei abaixo. Oscar, Rui e Huga eram irmãos entre si por parte de pai e mãe e eram irmãos, por parte de mãe, de Olga, Ophir, Odette e Oneide. Oscar, Rui, Huga, Olga, Ophir, Odette e Oneide já são todos falecidos. A última a falecer foi Oneide no dia 24 de junho de 2011. Da irmandade, com as mortes prematuras de Ondina, de Maria Oneide e de Onilde, todos os demais chegaram à idade adulta, casaram, tiveram filhos, como, também, o Osiris, meu irmão, e eu (Orlando), conforme será narrado abaixo.

Os diferentes locais dos nascimentos dos filhos do primeiro matrimônio de meu pai são claros sinais da mobilidade espacial da família.

Os filhos do primeiro matrimônio de Dorinha   – Oscar, Rui e Huga –    mudaram-se para o estado do Rio de Janeiro, onde se estabeleceram em Teresópolis, para onde os chamou uma tia paterna. Primeiro viajaram os dois mais velhos. Com quinze anos, mudou-se, também, a Huguinha. O Rui e a Huguinha com suas famílias, depois, estabeleceram residência na cidade do Rio de Janeiro.

A esposa de meu pai, Dorinha, depois de vários anos do seu segundo casamento, veio a falecer ainda relativamente jovem (segundo a informação que tenho, com 35 anos), quando Oneide tinha de 1 para 2 anos de idade. Meu pai ficara, então, viúvo e com quatro filhos e, nos primeiros anos, também, com a Huguinha (ainda adolescente), Oscar e Rui, antes de emigrarem para o Rio de Janeiro.

Sempre que Dorinha ia ter uma criança, uma sobrinha sua, a jovem que tinha por nome Maria   – mas que todos a chamavam de Nen -, filha de sua irmã Santá (Francisca), ia para a casa da tia, a fim de ajudá-la por ocasião dos nascimentos e, também, para estar com sua avó Silvana.  Com Dorinha, Torquato e filhos/as também morava D. Silvana, mãe de Dorinha e de Santá. Silvana era sogra de meu pai[2].

Três anos depois da morte de Dorinha, o viúvo José Torquato veio a casar-se com sua sobrinha por afinidade Nen, com quem já estava familiarizado ao longo de tantos anos de parentesco afim e de convívio. Eles se casaram no dia 24 de julho de 1923, quando meu pai tinha quarenta (40) anos de idade e minha mãe acabara de completar vinte e nove (29) anos. Como se vê, meu pai era 11 anos mais velho do que a minha mãe e esta diferença de idade sempre foi ressaltada por ambos. Assim se encontra registrado no Registro Civil de Casamento dos dois: “Receberam-se em matrimônio José Torquato da Silva, filho de Joaquim Torquato da Silva e dona Maria do Carmo Silva, com 40 anos de idade, empregado público, natural do Estado do Ceará, viúvo, residente em Bragança; com dona Maria Leite Sampaio, filha de Eliseu Mathias Sampaio e dona Francisca Leite Sampaio, solteira, natural do Estado do Ceará…”. Eliseu e Francisca (Santá) passaram a ser sogro e sogra de meu pai. A quando do casamento, Oneide se encontrava com 4 anos de idade. Ela sempre chamou minha mãe de mamãe, enquanto que Odette a chamava de “manhaNén” (madrinha Nén) e Ophir e Olguinha, os mais velhos, se dirigiam à mamãe pelo seu apelido familiar Nén.  Huguinha chamava papai ao único pai que conheceu, seu padrasto José Torquato, meu pai. Como se vê, o casamento com Nen (Maria) foi o segundo matrimônio de meu pai e deste matrimônio vieram a nascer dois filhos: Luiz Osiris, no dia 2 de junho de 1924 e Orlando (o autor deste texto), no dia 24 de janeiro de 1932[3], ambos em Bragança, Pará.

Meu pai havia passado do serviço de construção de estações para a função efetiva de Agente-Conferente (esta era a denominação oficial de sua função pública) da Estrada de Ferro de Bragança, uma ferrovia estadual, que, mais tarde, foi federalizada. Assim, meu pai veio a ser funcionário público federal como ferroviário, não trabalhando na linha férrea, mas, sim, em sua função como chefe de armazéns em diversas estações ao longo da Estrada de Ferro, vindo a fixar-se por extensos períodos, primeiro, em Bragança, onde nasceram alguns de seus filhos, entre os quais eu e meu irmão Osiris, e depois, em Belém. Na função de Conferente (como era mais conhecida sua função, mas, que também era referida por alguns como Despachante), meu pai chefiava armazéns de carga e bagagem, como ocorria em Bragança; as cargas   – gêneros diversos –   eram destinadas à importação e à exportação. Em Belém, sempre chefiou o armazém de bagagem, salvo em curto espaço de tempo em que esteve dirigindo o armazém de importação de carga. Meu pai trabalhava usando o uniforme de seu cargo constante de dolman e calça bege, boné azul marinho e gravata. Na sua função efetiva, meu pai trabalhou na EFB durante 43 anos, vindo a aposentar-se quando completou 73 anos de idade. Atingiu essa idade no dia 7 de maio de 1956 e quatro meses depois, no dia 5 de setembro, veio a falecer de uma trombose cerebral. Minha mãe faleceu de um infarto, em São Paulo, no dia 21 de dezembro de 1974, aos 80 anos de idade.

Santá (Francisca) e Dorinha (Vitória) eram irmãs, como já foi dito, ambas filhas de Silvana. Então, verifica-se que os filhos e filhas de Santá eram primos/as dos filhos e filhas da Dorinha. O que significa que minha mãe, Nén, era prima em primeiro grau dos filho/as do primeiro matrimônio de meu pai (portanto, do casamento do meu pai com Dorinha), assim como também era prima dos filhos/a do primeiro matrimônio de Dorinha. Com o casamento de minha mãe com meu pai, ela passou a ser, além de prima consangüínea em primeiro grau, também, madrasta de Olguinha, Ophir, Odette e Oneide; e, com os nascimentos meu e do Osiris, nós dois viemos a ser, também, primos consangüíneos e em segundo grau desses nossos irmão/irmãs. Família complicada! Eu e o Osiris sempre consideramos a Huguinha nossa irmã e prima; a Huguinha foi a única dos filhos do primeiro matrimônio de Dorinha que conhecemos e com ela chegamos a conviver em visitas recíprocas e estadias em Belém e no Rio de Janeiro. O filho e a filha de Huguinha    – Alcyr[4] e Adely – são meus primos e, também, os considero meus sobrinhos nessa relação afetuosa de parentesco. Não conheci pessoalmente o Oscar e o Rui, porém, conheci a esposa do Rui, assim como suas filhas Auri e Auni e seu filho Ari.

Como já foi dito acima, papai se estabeleceu em Bragança, trabalhando na estação da Estrada de Ferro, e aí se fixou por longos anos, durante os quais Olguinha, Ophir, Odette, Oneide e Osiris fizeram seus cursos primários no Grupo Escolar da cidade. Odette, após, foi para Belém matriculada no Curso Normal do Colégio Santo Antônio, por onde se formou professora primária. Em Bragança não havia nenhuma escola que oferecesse cursos de grau médio. Atualmente, há mesmo em funcionamento um campus universitário da Universidade Federal do Pará-UFPA, em Bragança.

Em Bragança havia um cinema, que meus pais freqüentavam, pois eram admiradores da sétima arte. Mais tarde, em Belém, quando eu ainda era criança, ia ao cinema com meu pai, em geral, aos Domingos. Após assistirmos à missa na Igreja de Nª Sª de Nazaré, por muitas vezes, fomos ao Cine Moderno ou ao Cine Iracema, ótimas salas localizadas no Largo de Nazaré, nas sessões da manhã (na capital paraense, as “matinées” se realizavam às tardes!).

Tendo o Osiris concluído seu curso primário, se deslocou para Belém, a fim de dar início ao curso ginasial no Ginásio Paraense, futuro Colégio Estadual “Paes de Carvalho”. A família continuava morando em Bragança, enquanto o Osiris cursava o primeiro ano neste ginásio; então, meus pais decidiram mudar-se para Belém, tendo papai pedido sua transferência e sido alocado na estação de São Braz-EFB (cf. acima). Assim, a família migrante migrou no dia 25 de abril de 1938 de Bragança, no interior do Pará, para a capital do Estado, Belém. Quando esta mudança ocorreu, Olguinha e Ophir já eram casados, respectivamente, com Dário Queiroz do Rosário e Stella Ferreira da Silva, e tinham filhos. São filhos de Olga e Dário: João Claro (falecido), Vitória Dóris, Delfina Dária, José Ubiratan (falecido), Irandir, Ivanir Maria e Antônio Fernando. Os filhos de Ophir e Stella são: José, Jader (falecido), Gelson (falecido), Juraci, Jéferson (falecido), Maristela, Maria Vitória, Jair, Ofir, Maria de Fátima, Célia e João Bosco.

Para Belém fomos: papai, mamãe, Odette, Oneide, Osiris (que já estava estudando em Belém) e eu, que, havia pouco tempo, completara 6 anos de idade. Nós que, durante muitos anos, havíamos morado, em Bragança, em uma casa grande, “ficando a porta entre quatro janelas”[5], que tinha um enorme quintal provido de grande quantidade de árvores frutíferas, em Belém, passamos a morar em uma pequena casa na Av. Ceará, Nº 38 (que meu pai adquiriu), bairro de Canudos, situada próxima à estação da Estrada de Ferro, mesmo para a comodidade de meu pai, que tinha de se deslocar pela madrugada para o seu trabalho. Nossa casa (própria) de Bragança localizava-se no centro de um quarteirão, no qual era a única habitação, e o quintal ocupava a metade da quadra. Lá, morávamos, também, próximos da estação da estrada de ferro.

Em Belém

Oneide se casou com João Baptista Seráphico de Assis Carvalho, e Odette, com Miguel Albuquerque Moreno, e, nesta cidade, nasceram seus filhos e as duas famílias aí viveram de forma permanente. Os filhos de Odette e Miguel são: Ana Vitória, Fernando José e Luis Otávio. São filhos de Oneide e Seráfico: José, Maria Vitória, Maria Georgina, Maria de Fátima, Jorge Augusto, Maria Lúcia, Jaime Roberto e Paulo Fernando. Integra esta irmandade João Baptista filho do primeiro matrimônio de meu cunhado Seráfico.

O Osiris se formou em professor primário, pela Escola Normal, concluiu seu curso secundário no “Paes de Carvalho” e fez o curso de Direito, tornando-se advogado, além de ser bancário (Banco da Amazônia).


[1] Um registro de ordem biométrica, para documentação: Meu avô Eliseu era um homem alto, magro, branco, cabelos alourados, corado e de olhos azuis. Minha avó Santá era morena. Minha mãe, fisionomicamente parecida com seu pai, era branca, cabelos pretos longos e ondulados e tinha olhos azuis. Dessa ascendência, herdei a cor de meus olhos (azuis), tendo o mesmo acontecido com meu filho Márcio Orlando.

[2] Silvana, minha bisavó, foi mãe de quatro filhas: Maria, Roché, Francisca (Santá, minha avó materna) e Vitória (Dorinha). Maria era a mãe de João Cavalcante de Lima, e Roché era mãe de Nonô, sendo estes  primos em primeiro grau de minha mãe. Foram os únicos primos de minha mãe que conheci pessoalmente.   João era o pai de Vladir Cavalcante de Lima, a quem me refiro em outras partes deste texto.

[3] Nasci na casa de meus pais sob os cuidados da parteira d. Finoca Rosário, que era mãe de meu cunhado Dário, marido de minha irmã Olga. Na retaguarda, para o caso de ser necessário, encontrava-se o médico recém-formado Dr. Armando Bordallo da Silva, também bragantino.

[4] O Alcyr Cahet Rebello fez carreira militar na Aeronáutica, tendo atingido o posto de Major Brigadeiro Aviador.

[5] Por corresponder à descrição da frente de nossa casa de Bragança, estou citando Machado de Assis, in Iaiá Garcia, Obras Completas, W. M. Jackson  Inc. Ed., Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, 1955 (p. 123).