D – Religião

          Meus pais pertenciam a famílias católicas e eram católicos praticantes, indo todos os Domingos à missa e cumprindo os demais deveres religiosos em outras épocas do ano, como pela Semana Santa, pela Festa na Nª Sª de Nazaré e pelo Natal. Eu e meus irmãos nascemos nesse ambiente religioso. Eu, p. ex., (como todos os meus irmãos) fui batizado e crismado, porém em idades tão tenras, que não faço a menor idéia concreta de ter participado desses rituais[1]. Em minha casa, havia um oratório e, durante a minha infância e adolescência, eu assistia e acompanhava as orações de meus pais, cada qual a sua vez, diante do nicho religioso. Eles, vez por outra, ajoalhados em face do oratório, rezavam novenas no cumprimento de promessas. Aos dez anos de idade fiz minha primeira comunhão na missa das cinco (horas da madrugada) na igreja de Nª Sª de Nazaré. Para participar desse sacramento, antes, tive uma entrevista de orientação com um padre e me confessei. No grupo escolar, tive aulas de catecismo. Fiz o meu primeiro ano ginasial em um colégio religioso católico    – o “Nª Sª do Carmo” -, no qual se estudava religião como uma das matérias do currículo e os alunos praticavam todos os compromissos religiosos ao longo do ano. No início e, em alguns casos, no final das aulas, rezavam-se orações. Lá ganhei uma medalha como o melhor aluno de religião de minha classe (cf. acima). Eu me senti católico praticante (ia a missa com meus pais ou só, neste último caso, no Colégio/Igreja Nª Sª do Carmo, todos os Domingos) até os 16 anos de idade, quando ocorreu um incidente, que me afastou da Igreja. Foi o seguinte: Estávamos na Páscoa e eu fui à igreja de Nazaré para me confessar e comungar, conforme seria o dever religioso. Encontrava-me em pé em uma fila junto a um confessionário em uma das naves laterais do templo, esperando a vez para a confissão e pretendia comungar na missa que seria celebrada a seguir. Ocorre, que, naquele momento, estava sendo oficiada uma missa no altar-mor da qual eu não estava participando. De onde eu me encontrava, nem mesmo via o altar, onde ocorria a celebração. Porém, chegou o momento da “elevação do santíssimo sacramento” (quando o padre eleva a hóstia [ou pão] já ritualmente consagrada, ou seja, já havia ocorrido a transubstanciação em corpo de Cristo, conforme a teologia e a liturgia católicas) e fizeram-se ouvir as campaínhas que anunciavam a gravidade e profundidade do momento. Nesse tempo, por ocasião da “elevação”, as pessoas deveriam necessariamente ajoelhar-se. Eu, no entanto, que não estava participando do ritual da missa celebrada naquela hora, encontrava-me de pé e atrás de uma coluna. Foi quando o padre, interrompendo uma confissão, saiu do confessionário e se dirigiu a mim asperamente e aos gritos dizendo que, naquela hora sagrada, eu “estava em pé, parecia um pau, quando deveria estar ajoelhado”. Disse isto em altos brados diante de todas as demais pessoas que se encontravam por perto. Do meu ponto de vista, com aquele comportamento, a atitude do padre foi muito mais ofensiva e desrespeitosa ao ritual da missa do que a minha, que inocentemente fui surpreendido pela reprimenda. Foi o que pensei naquele momento, em que me senti humilhado. Depois dessa ocorrência, eu que já tinha minhas dúvidas de fé, deixei de cumprir os deveres de um religioso católico e abandonei a religião tornando-me um livre pensador, aos dezesseis anos de idade. Porém, em minha casa, ao longo da vida, eu tinha a minha mãe, católica, que cumpria todas as suas obrigações religiosas. Quando nossos    – meus e da Edith –   filhos nasceram, todos foram batizados e têm seus padrinhos de batismo.


[1]  Em minhas lembranças do passado encontram-se os nomes de algumas pessoas, amigos/as de meus pais, que participaram de rituais religiosos nos quais eu cumpria meus primeiros sacramentos: o sr. João da Cruz Pacheco e sua esposa Amélia, que foram meus padrinhos de batismo. O sr. Pacheco era comerciante. Meu padrinho de crisma (ou confirmação) foi Joaquim Lobão da Silveira, político, advogado e jornalista bragantino (com quem colaborei, na adolescência, no “Jornal do Caeté” e nos periódicos “Revista Bragantina” e “Bragança Ilustrada” dos quais ele era diretor e proprietário). Os rituais desses sacramentos católicos foram realizados em Bragança, PA, onde nasci. Essas pessoas se tornaram, assim, compadres de meus pais.

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