E – Nossa Família Nuclear se Constitui

         De nossa família, a primeira pessoa que fez uma viagem de um país a outro foi uma bebezinha recém-nascida, a Edith, em 1936, indo com sua mãe de Londres, na Inglaterra, onde nascera, para Berlim, na Alemanha.

         Depois, eu, com seis anos de idade (cf. acima), em viagem interna, me mudei, com minha família, de Bragança para Belém, em abril de 1938.

         Em 1939, às vésperas de estourar a II Guerra Mundial, Edith (com três anos de idade) e seus pais Martin e Hilde Seligmann viajaram de navio, mudando-se de Berlim, onde residiam, para o Brasil, fugindo do nazismo e da guerra que se aproximava, indo residir, primeiramente, no Rio de Janeiro. Em 1943, a família Seligmann, que, então, contava com mais um membro, a Eleonora, transferiu-se, em viagem de avião, do Rio de Janeiro para Belém, no Pará. Viagens de navio, neste tempo de guerra, eram perigosas, porque os submarinos da Alemanha nazista estavam afundando os navios mercantes brasileiros na costa do Brasil. Em Belém, veio a nascer o Ruy.

         O sr. Martin era alemão meio judeu, já que seu pai Paul Seligmann era judeu-alemão e sua mãe, Dorothea Kolanda, húngara católica.  O pai do sr. Martin era comerciante e sua mãe, dona de casa. Meu futuro sogro era formado em Direito na Alemanha, onde também se doutorou. No Brasil, não podendo exercer sua profissão, trabalhou como representante comercial (importação e exportação principalmente de materiais científicos) e, como produtor rural em um sítio em Santa Isabel, no Pará. D. Hilde pertencia a uma família hebraica tradicional. Os pais de D. Hilde eram Eduardo e Marta Marxheimer. O sr. Eduardo era proprietário da companhia telefônica de Düsseldorf, Alemanha, e d. Marta era dona de casa. D. Hilde era dona de casa, portanto, de “prendas domésticas” ou “do lar”. Era uma ótima quituteira, principalmente, de pratos alemães e se dedicava intensamente aos negócios familiares relativos à produção e venda dos produtos do sítio. Viúva, tendo se mudado para São Paulo, já idosa, minha sogra trabalhou na área do turismo.

         E os anos se passaram… anos de minha socialização na infância e na adolescência, assim como da Edith, ambos vivendo em Belém. Sobre as escolas em que estudei já me referi acima. Edith, no Rio de Janeiro, morava no bairro do Rio Comprido. Em Belém, a família Seligmann residiu inicialmente na Av. 15 de Agosto,  no Avenida Hotel, um dos primeiros hotéis modernos de Belém e um ótimo hotel ao tempo. A Avenida 15 de Agosto, depois, passou a ser a Av. Presidente Vargas, no centro da cidade. Depois, mudaram-se para uma casa grande em meio a um terreno com árvores frutíferas situado na Tv. Antônio Baena, no bairro do Marco. Na época da Antônio Baena, Edith e eu morávamos muito próximos, pois eu residia na Av. Ceará, no bairro vizinho de Canudos (como já foi dito acima). Eu a via passar levando a irmãzinha pela mão, caminhando sobre os trilhos da estrada de ferro, na Av. Tito Franco (mais tarde, Av. Almirante Barroso) já chegando ao Largo de São Braz. Depois, quando ela já era adolescente, eu a via, vez por outra, andando na região, com o uniforme do Colégio Moderno e cheguei a vê-la na casa em frente à minha, na Av. Ceará, quando ela foi visitar sua colega de colégio Edinéia. Mas, voltando às residências: Da Trav. Antônio Baena, a família Seligmann se mudou para a Rua Boaventura da Silva, no bairro do Umarizal. Quando nos casamos, em 1957, passamos a morar nesta casa dos pais da Edith até o início de 1960, quando viemos para São Paulo, conforme voltarei a me referir depois.

         Edith, ainda no Rio de Janeiro, iniciou seus estudos freqüentando um jardim de Infância e a alfabetização em uma escola católica. Já em Belém, freqüentou o curso primário, inicialmente no Colégio Moderno, depois no Instituto Suíço-Brasileiro; em seguida, estudou no Grupo Escolar “Paulino de Brito”, vindo a fazer o curso de admissão ao ginásio no Colégio Moderno, escola em que, também, fez os cursos ginasial e científico. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará-UFPA, em 1959. Edith se manteve vinculada a esta instituição de ensino superior, já médica, porém, como professora, tendo, mediante sucessivos concursos, atingido o nível de Professora Adjunta.

         Edith, na adolescência, estudou piano com a professora Clara Pandolfo.

         A Edith, na adolescência, praticou sistematicamente natação na FEIJ, uma instituição educativa localizada na Av. Independência. Eu, quando era aluno do curso colegial, pratiquei remo na sede náutica do Paissandu (na Cidade Velha), apesar de ser torcedor do Clube do Remo… (clube do qual, tornei-me sócio). Eu e meus colegas remávamos na Baía de Guajará em frente de Belém.  Também, joguei volley, esporte que abandonei desde um dia em que, treinando, tive um pequeno acidente no dedo polegar de minha mão direita.

Namoro, Noivado e Casamento

         Foi em uma viagem ao Mosqueiro, nas férias de julho de 1954, quando éramos estudantes universitários, que eu e Edith nos encontramos e juntos começamos esta jornada, que já dura bem mais de cinqüenta anos. Namoramos durante um ano, fomos noivos nos dois anos seguintes e nos casamos no dia 2 de julho de 1957. Eu já estava formado em Direito e a Edith se encontrava no 4º ano de Medicina. A cerimônia civil do casamento transcorreu na própria casa da família Seligmann, ou seja, na casa dos meus sogros, perante o Juiz, contando com a presença das testemunhas, de minha mãe, dos pais da Edith, de seus dois irmãos, de meus irmãos, de outros parentes e outros convidados. Entre os amigos que foram nossas testemunhas de casamento, posso registrar: Egídio Sales e Ivete, Marina Mata, Margarida Bonef, Lizete Lins, Raimundo Cunha, Raimundo Medeiros, José de Ribamar Darwich, Graciema e Antônio Chaves. A festa-recepção de nosso casamento foi linda, animada, concorrida, significativa e simbólica. Dispensamos o casamento religioso por razões óbvias. No dia seguinte, Edith e eu viajamos em viagem de lua de mel. 

Viagem de Lua de Mel

         Vou falar, agora, sobre nossa viagem de lua de mel. No dia 3 de julho de 1957, ou seja, no dia seguinte ao de nosso casamento, eu e Edith viajamos em um DC3 da NAB-Navegação Aérea Brasileira, para o Rio de Janeiro, em viagem de lua de mel. Foi minha primeira viagem em vôo comercial. O sr. Martin nos deu de presente de casamento as passagens aéreas para essa viagem: Bel/Rio/Bel. Mas, nosso destino era São Paulo, trecho final da viagem, que faríamos de ônibus entre o Rio e S. Paulo. A viagem aérea para o Rio de Janeiro durava, à época, 8 horas, com diversos pousos intermediários do pequeno avião. Depois de um vôo normal, chegamos ao Rio às 09,00h da noite. Mamãe viajou conosco. Passamos quatro dias nesta cidade onde a Edith havia morado na infância, mas a qual eu estava indo pela primeira vez. Então, nos hospedamos no apartamento de uma antiga vizinha minha na Av. Ceará, em Belém, a Elsa; o apartamento tinha ótima localização, pois ficava na Av. Nª Sª de Copacabana, na altura do Posto 2. A mamãe se hospedou no apartamento da Edite, aquela minha vizinha da Av. Ceará, que me havia alfabetizado (cf. acima). A Edite e a Elsa eram cunhadas entre si. Passamos quatro dias maravilhosos na então capital federal, onde conhecemos os lugares turísticos mais atraentes: a praia de Copacabana, o Pão-de-Açucar, o Corcovado, a Floresta da Tijuca, Sta. Tereza, São Conrado, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, a Ilha de Paquetá, Ipanema, Leblon, Bota Fogo, Flamengo, o centro da cidade etc. Do Rio de Janeiro seguimos os três para São Paulo, onde passamos três semanas, hospedados na casa do Osiris, que, na época, morava em um sobrado na Água Branca. Foram dias mais para o convívio com a família, pois São Paulo não era (e ainda hoje é muito pouco) uma cidade turística. Mas, passeamos muito, conhecemos o centro da cidade, o parque do Ibirapuera, neste, o Planetário, estivemos em Santo Amaro, na Guarapiranga, na Cidade Universitária, subimos ao Pico da Jaraguá, fomos à Cantareira, ao Horto Florestal, ao Parque do Ipiranga, visitamos museus de arte e descemos para Santos, onde conhecemos uma família de primos pelo lado da mamãe (a prima Neném, Veríssimo seu esposo, e as filhas e filho Neanver, Mallory e José). Mamãe estava sempre conosco nos passeios. Geralmente, íamos com o Osiris e turma. Foram dias tranqüilos, mas movimentados e gostosos pela companhia familiar. Sentimos muito frio, pois estávamos em pleno inverno. Completado nosso período paulista, retornamos de ônibus ao Rio de Janeiro, onde, desta vez, fomos recebidos com todo desvelo e carinho pela Adely, minha sobrinha-prima, e seu marido José Luiz [1]. Nossos queridos hospedeiros foram muito amigos, gentis e atenciosos para conosco. Mamãe ficou em São Paulo com o Osiris. Nessa oportunidade, passamos mais quatro dias no Rio e, então, seguimos de avião para Belo Horizonte, onde ficamos dois dias. A decisão de ir às alterosas foi tomada quando, na ida para o Rio de Janeiro, sobrevoamos Belo Horizonte e descemos no seu aeroporto. Resolvemos seccionar nossas passagens do retorno a Belém, para conhecermos Belo Horizonte, cidade da qual gostamos muito e onde ficamos hospedados em um hotel no centro. Da capital mineira viajamos para Belém, depois de um mês de lua de mel. Foram dias inesquecíveis.

Nascem os Filhos

         No dia 28 de setembro de 1961, nasceu o José Jorge. No dia 18 de março de 1963, nasceu o Álvaro. Quando os dois primeiros filhos nasceram, morávamos na casa, que alugamos, na Rua Boaventura da Silva, em Belém. No dia 27 de novembro de 1964, nasceu o Márcio Orlando, quando estávamos morando em São Paulo, onde nosso apartamento ficava na Rua Arruda Alvim, em Pinheiros. No dia 5 de abril de 1969, nasceu a Rosana Maria. Então, morávamos na Rua Benjamin Constant, em Belém. No dia 3 de novembro de 1970, nasceu a Andréa. Então, estávamos morando de forma definitiva em São Paulo, na ocasião, na Rua Botucatu, Vila Clementino. José Jorge, Álvaro e Rosana nasceram no Hospital do Servidor Público do Estado (PA), na Av. Independência, sob os cuidados do Dr. Cláudio Lobato. O Márcio e a Andréa nasceram na Maternidade São Paulo, na Rua Frei Caneca, em São Paulo, tendo o Márcio sido recebido pelo Dr. Pedral Sampaio e a Andréa, pelo Dr. Ciro Ciari Jr. Não posso deixar de me referir a dois acontecimentos tristes, principalmente o primeiro. Em 1959, quando a Edith se encontrava no sexto e último ano do Curso de Medicina, ela engravidou. No nono mês de gravidez perdemos o nenê. Depois, quando passávamos o ano de 1960 em São Paulo, Edith teve nova gravidez interrompida, então, no terceiro mês.

Batizados

         Não quero deixar de registrar neste texto que todos os nossos filhos são batizados na Igreja Católica, sendo os padrinhos: do José Jorge, Harald e Jurema Ploks; do Álvaro, o primo José Seráfico e minha mãe, portanto, sua avó Nen (Maria); do Márcio, Aderson Lopes e a tia Eleonora; da Rosana, Orlando e Diana Costa, e da Andréa, Roberto e Betty Santos.

Escolas dos Filhos em Belém

          O José Jorge, dando continuidade a sua formação escolar iniciada em São Paulo, logo que retornamos a Belém, foi matriculado e freqüentou, durante o ano de 1966, o ótimo jardim de infância do Grupo Escolar “Barão do Rio Branco”, localizado à Av. Generalíssimo Deodoro esquina com a Rua Brás de Aguiar. Em seguida, ele, o Álvaro e o Márcio estudaram na Escola “John F. Kennedy”, então, a melhor escola primária da cidade e que era mantida pela Igreja Episcopal (Anglicana) de Belém. No “Kennedy”, o José Jorge ingressou no pré-primário, o Álvaro, no jardim de infância, e o Márcio, no maternal. Nessa escola modelo os três filhos ficaram até nossa mudança para São Paulo.


[1]  O José Luiz Gameiro Sarahyba, ao tempo, era 1° Tenente de Infantaria do Exército, vindo, mais tarde,  a atingir a patente de General de Brigada.