G – Geração. Intelectuais

         Eu e Edith pertencemos a uma geração  – nos chamados anos dourados, temporalmente, do final da II Guerra Mundial até março de 1964 –   em que havia muitos jovens intelectuais, poetas, interessados em literatura, em filosofia, em leituras diversas, especialmente de poesias, romances e filosofia. Nós fazíamos parte dessa categoria de jovens daquele tempo; éramos poetas e líamos muito, especialmente a Edith, que era uma sôfrega leitora. Eu fui um leitor durante toda a minha vida, mas vim a me tornar um ávido leitor já na maturidade. Lembro de um episódio ocorrido no início de 1944, quando eu ingressei no 5º ano primário, ocasião em que organizei um pequeno grupo de colegas e vizinhos interessados em leituras. Nos reuníamos na sala de visitas de minha casa e, nos encontros, procurávamos ler trechos de livros que estávamos então lendo. Grupo de existência efêmera. Nesta mesma época, fui designado, pela Diretora, bibliotecário da biblioteca do Grupo Escolar em que eu estudava[1].

Grêmio Cultural “Castro Alves”

         Uns poucos anos depois, quando eu estava com 16 anos de idade, organizei com outros colegas, entre os quais o meu sobrinho mais velho João Claro do Rosário Neto e o Octávio Avertano Barreto da Rocha, o Grêmio Cultural Castro Alves. Éramos poetas, contistas, jornalistas, oradores, estudiosos de história e de literatura, pessoas interessadas em filosofia, outros, em política e outros ainda que eram apenas interessados em leituras diversificadas. O grupo se constituía de cerca de uma dúzia de estudantes secundaristas, entre os quais, além dos acima referidos (os idealizadores e diretores da entidade), encontravam-se o Carlos Alberto Dias de Andrade Monteiro, o Raimundo de Souza Cunha, o Raimundo Medeiros da Silva, o Rodrigo Cruz e o Altamir Souza, jovens que, em geral, estavam freqüentando o curso colegial. O presidente da entidade era eu, que dirigia suas sessões, as quais se realizavam, inicialmente, na casa de meu irmão Ophir, na Rua 9 de Janeiro ao lado do Museu Goeldi, e, depois, na sede de um clube social no bairro de Canudos. Recitávamos poesias, principalmente, de Castro Alves, o nosso patrono. Éramos grandes admiradores da poesia do poeta dos escravos, de seus poemas libertários, condoreiros, e da sua poesia lírica-amorosa. Jovens como éramos, discutíamos a obra de Monteiro Lobato, inclusive a infanto-juvenil, e líamos artigos de jornais, trechos de livros, que eram comentados, fazíamos discursos inflamados, ora sobre temas literários, ora sobre temas filosóficos ou mesmo políticos. Nosso Grêmio Cultural funcionou durante, aproximadamente, dois anos.

Página do Estudante

         Coexistindo com esse grupo, havia outro mais amplo, que se concentrava em torno da Página do Estudante, uma secção dominical de um jornal diário de Belém, O Estado do Pará. Por intermédio desse veículo da imprensa paraense, jovens estudantes publicavam suas poesias, artigos e crônicas. Publiquei nesta Página diversos poemas de minha lavra. Como eu, também pertenciam ao grupo da Página do Estudante alguns colegas já referidos acima, como o Rosário Neto (João), e o Octávio Avertano e outros, entre os quais Evandro de Oliveira Bastos, Carmen Lúcia Paes, Roberto Santos, Acyr Castro, Amilcar Tupiassu, Juarimbu Tabajara, Oiran Ribeiro, Raimundo Noleto, etc.

Outro Grupo de Jovens Intelectuais

         Eu pertenci, também, a um outro grupo de jovens, quase todos poetas, com características semelhantes às dos que integravam os grupos anteriores, porém, que já estavam na faixa dos 19 e 20 anos de idade, portanto, ingressando na academia. Um dos fatores de aproximação entre nós neste grupo era o fato de sermos, em grande parte, bragantinos, ou seja, a maioria de nós havia nascido na cidade de Bragança, no nordeste do Pará. Não éramos mais do que doze estudantes do último ano do colegial e, depois, do primeiro ano da Faculdade de Direito. Nos reuníamos informalmente em um bar    – Café Albano, próximo do Colégio “Paes de Carvalho”. Deste grupo faziam parte, eu próprio, Orlando Sampaio Silva, João Rosário Neto, Almir Pereira, Amilcar Martins (aquele que veio a ser diretor do Banco do Brasil, onde trabalhava, cf. acima), Jorge Ramos, Raimundo Medeiros da Silva (que era meu aparentado), José Quintino Leão (sendo os até aqui referidos os bragantinos), Octávio Avertano Rocha, Evandro de Oliveira Bastos, Carlos Alberto Dias de Andrade Monteiro, Carmen Lúcia Paes e, eventualmente, Avelino Henrique dos Santos. Quase todos os bragantinos publicavam suas produções literárias, tais como poesias e artigos, por intermédio das páginas da imprensa de Bragança: o Jornal do Caeté, e as revistas Bragança Ilustrada e Revista Bragantina. Eu, particularmente, também publiquei poemas meus em uma revista editada pelo escritor paraense Adelino Brandão em Araçatuba, SP, além de ser colaborador com artigos no Suplemento Literário do jornal A Província do Pará, dos Diários Associados de Belém, e na Revista Brasiliense, da Editora Brasiliense, de São Paulo.

         Registro, ainda, que eu e o João Claro do Rosário Neto comparecíamos, com relativa freqüência, às reuniões dominicais da Academia Paraense de Letras-APL, no salão nobre do Instituto de Educação do Pará, onde ouvíamos recitações de poesias por Georgenor Franco, Bruno de Menezes, Jurandir Bezerra, Rodrigues Pinagés e outros, sendo o presidente do silogeu Arcelino de Leão, médico clínico geral (o médico de minha família originária) dedicado ao estudo da história da medicina no Pará; mas, quem nos encantava mesmo em sua forma lírica-erótica de dizer seus versos era a poetisa Adalcinda Camarão; para nós ela era uma verdadeira musa inspiradora…

Os Intelectuais que se Reuniam no Central Café

         Na mesma época e por um longo tempo, um grupo dos mais importantes, expressivos e reconhecidos intelectuais paraenses, mais velhos do que os acima referidos, liderados pelos professores Francisco Paulo Mendes (literatura e língua portuguesa) e Benedito Nunes (filosofia), reunia-se, informalmente, quase todos os finais de tarde, em outro bar, o Central Café, também no centro da cidade, na Av. Quinze de Agosto, depois, Presidente Vargas. Deste grupo faziam parte, além dos dois mestres já referidos   – F. Paulo Mendes e Benedito Nunes -, que catalisavam o grupo, mais os poetas Ruy (Paranatinga) Barata, Mário Faustino, Paulo Plínio Abreu (também, tradutor, professor e bibliotecário, tradutor direto do alemão de Rainer Maria Rilke), Haroldo Maranhão ( jornalista, poeta, livreiro e depois romancista), Max Martins, Alonso Rocha, Leonam Cruz, Maurício de S. Rodrigues, Benedito Vilfredo Monteiro (poeta, depois, também, romancista), os intelectuais Cécil Meira, Sílvia Silva Nunes, Inocêncio Machado Coelho, Orlando Costa, Levy Hall de Moura, o juiz do trabalho Raymundo de Souza Moura. Outros intelectuais mais novos, de vez em quando, compareciam aos encontros do Central Café, entre os quais, alguns integrantes daquele grupo de jovens a que me reportei anteriormente (quase todos poetas), tais como Almir Pereira, Orlando Sampaio Silva (peço licença, eu próprio), Amílcar Martins, Jorge Ramos, João Claro do Rosário Neto, Octávio Avertano Rocha, Evandro de Oliveira Bastos, Carmem Lúcia Paes, Acyr Castro, Amilcar Tupiassu, Rafael Costa, Manoel Penna (Pennão), Edith Seligmann, Simão Bitar, Roberto Santos, Carlos Alberto Dias de Andrade Monteiro, Avelino Henrique dos Santos, e alguns mais velhos: Floriano Jaime, Armando Mendes, o padre Ápio Campos, Cléo Bernardo (de Macambira Braga), José Maria Bittencourt Alves da Cunha, o advogado, cartorário e professor Arthur Napoleão Figueiredo e outros. Os intelectuais que se encontravam no Central Café, à época, se constituíam na fina flor do Lácio… digo, da cultura filosófica e literária de Belém. Estas listagens de nomes podem não estar exaustivas; também é possível que um ou outro não comparecesse ao Central Café; mas todos integravam a referida geração de intelectuais. As reuniões do Central Café eram animadas e instigantes encontros, nos quais todos os temas culturais, então, na moda, eram discutidos. Muitos desses intelectuais publicavam suas produções nos suplementos literários dos jornais Folha do Norte, A Província do Pará e O Estado do Pará, e, em revistas de cultura como a Encontro e a Norte.

Filosofia

         Neste mesmo tempo ou um pouco depois, surgiu um novo grupo, sendo este interessado especificamente no estudo de filosofia. O grupo se reunia em torno do Benedito Nunes e se encontrava na casa do Orlando Costa, jurista e professor de Sociologia, meu amigo e colega. Nesta época, o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, ainda muito jovem, estava interessado em refletir principalmente sobre a filosofia tomista (de Sto. Tomás de Aquino). Era um grupo fechado. Edith e eu fizemos parte deste grupo, que, também, não sobreviveu por muito tempo. Então, eu me encontrava no segundo ano do Curso de Direito e a Edith, aluna de filosofia do Benedito Nunes, no Colégio Moderno, preparava-se para ingressar no Curso de Medicina.

Os Espectadores

         Fizemos, também, parte do Cine Clube “Os Espectadores”, que era coordenado pelo Orlando Costa e reunia um considerável público em sua sede, na Sociedade Artística Internacional, na Rua João Diogo. Nas sessões do Cine Clube, eram projetados filmes de arte, que eram discutidos pela platéia, em cujos debates se destacavam os professores F. Paulo Mendes e Benedito Nunes. O tesoureiro do Cine Clube e cobrador das mensalidades era o Wilson Penna  (Penninha), cunhado do Orlando Costa. O Penninha era irmão da esposa do Orlando, Diana Isis Penna da Costa, nossa amiga. Assistíamos filmes experimentais alemãs, filmes da nouvelle vague francesa, do neo-realismo italiano etc.

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          Todo esse dinamismo cultural foi possível, nessa época, em grande parte,  porque estávamos em uma fase de grande movimentação, efervescência e produção intelectual em Belém e no Brasil. Em 1945, havia terminado a II Guerra Mundial com a vitória das democracias. No Brasil, terminara, no mesmo ano, um longo período de governo totalitário, a ditadura de Getúlio Vargas (1930 – 1945). Getúlio viria a ser presidente da República, nesta nova fase política democrática, desta vez, eleito pelo povo e foi sucedido pelo presidente Juscelino Kubitschek, o mais democrata dos presidentes do Brasil, o qual liderou o país no período culminante dos assim denominados “anos dourados”, e que conseguiu despertar no povo um sentimento de orgulho de ser brasileiro e de viver em uma autêntica democracia. Juscelino, também, dinamizou o sistema capitalista brasileiro, com a ampliação do parque industrial, principalmente, com a indústria automobilística e construiu rodovias importantes, entre as quais a Belém-Brasília, que contribuiu para reduzir o isolamento relativo em que vivia a Amazônia. Fez um governo com forte coloração nacionalista e muito dinâmico, mesmo sendo perseguido pela oposição de direita. Durante a administração de Juscelino na Presidência da República, houve duas tentativas fracassadas de levantes militares (golpes) contra seu governo, ambas na Amazônia, em Aragarças e Jacareacanga[2].


[1] Em se tratando, nesta parte do texto, de memória desta fase de minha vida ainda na infância, época em que eu lia literatura para crianças e adolescentes de Monteiro Lobato e, também, “livros do Tarzan” (Edgar Rice Burroughs), lembro que, quando eu tinha oito anos de idade, elaborei, mentalmente, em plena fantasia infantil, um projeto em que todos os países do Mundo seriam dirigidos por crianças da minha idade. Eu achava que os mais velhos não tinham competência para administrar, e, sim, as crianças em sua força vital, pureza de pensamento e ética absoluta em sua plenitude!…

[2]  Registro, neste espaço histórico, nomes de alguns jovens intelectuais que se destacaram na geração posterior principalmente de professores e pesquisadores no campo das humanidades: Edson Soares Diniz, Isidoro Alves, João de Jesus Paes Loureiro, José da Silva Seráfico de Assis Carvalho, Pedro Galvão de Lima, Roberto Cortez de Souza, Ronaldo Barata, Ruy Antônio Barata, José Ubiratan da Silva Rosário, Samuel Sá, Raymundo Heraldo Maués, Angélica Maués, Eneida Corrêa de Assis, Manoel Alexandre da Cunha, Jane Beltrão, Anaísa Vergolino e Silva Henry, Edna Castro, Violeta Refkalefsky Loureiro, Geraldo Mártires Coelho, Alex Fiúza de Mello, Lourdes Furtado, Roberto Araújo, Walcir Monteiro, Lúcio Flávio Pinto. Desculpem-me os que,  imerecidamente, não foram referidos.

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