H – Exército

         Um fato de minha juventude que me marcou fortemente foi minha passagem pelo Exército. Porém, antes de abordar propriamente este tema, quero registrar neste item experiências correlatas pela qual passei na adolescência. Em 1944, quando ingressei no curso ginasial, o Brasil se encontrava em pleno Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, e estava em guerra   – II Guerra Mundial, da qual nosso país participou com a Força Expedicionária Brasileira-FEB, que integrava os exércitos Aliados na luta contra o Eixo nipo-nazi-fascista. O governo havia instituído, então, nas escolas secundárias, o adestramento ao qual denominava de Instrução Pré-Militar. Geralmente, sargentos do Exército ministravam as sessões da referida disciplina. Aprendiam-se os nomes das diversas Forças Armadas, as denominações dos diferentes postos na hierarquia militar, os dois princípios básicos que, entrelaçados, fundamentam as Forças Armadas – a hierarquia e a disciplina -, praticava-se intensamente ordem unida, aliás, com muito rigor, e marchava-se. Passei por esse aprendizado   – o qual, em verdade, muito me agradava –   tanto no 1° ano ginasial, no Colégio do Carmo, quanto no 2° ano, no CEPC  – 1945 -, ano em que terminaram a ditadura Vargas e a guerra. Com o fim desta, passamos a viver em uma democracia, com um presidente de República eleito diretamente pelo povo, o Gal. Eurico Gaspar Dutra, que havia sido o Ministro da Guerra no Estado Novo. Dito isso, passo, ao tema central desta parte do texto, não sem antes registrar os seguintes fatos: Quando eu estava no quarto ano ginasial (CEPC), o meu colega de turma Wladir Cavalcante de Lima (meu primo em terceiro grau, cf. acima) me incentivou para que eu fosse estudar no Colégio Militar de Fortaleza, Ceará. Ele foi e eu não fui. Wladir fez carreira militar como oficial de intantaria do Exército, tendo atingido o posto de General de Brigada (cf. acima). Se eu tivesse ido…

         Enfim, eu no CPOR: Com dezenove anos de idade, quando me encontrava no 3º ano colegial, ingressei no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva-CPOR do Exército, em Belém. Pretendia fazer o curso na Arma de Infantaria, mas, de início, este não estava funcionando, e fui para a turma do Serviço de Intendência. O curso teve início no dia 15 de dezembro de 1951. Tínhamos aulas e instruções militares diárias no quartel localizado no Largo de Nazaré, ao lado da Igreja de Nª Sª de Nazaré. A partir do dia 1º de janeiro de 1952, o curso de Intendência foi transformado em curso de Infantaria, correspondendo esta mudança à aspiração da maioria dos alunos. Então, para compensar as perdas na instrução daqueles primeiros quinze dias, passamos a ter aulas e exercícios militares redobrados da Arma de Infantaria, excesso de sobrecarga de trabalho e esforço físico que levou os que tinham algum problema de saúde e/ou que não tinham preparo físico para tanta mobilização de forças e energias, a abandonarem o curso, tendo a turma sido reduzida quase à metade de seus integrantes. No final do primeiro ano, fui classificado em primeiro lugar na turma. Ao término do curso de dois anos, eu fiquei classificado em quarto lugar por razões de política interna da turma e do quartel, muito embora fosse considerado por alguns de meus colegas que o justo seria eu ter sido mantido no primeiro lugar. Logo depois de mim, em quinto lugar, classificou-se o também meu colega de turma na Faculdade Wilson Souza. Para mim não importava; eu estava bem classificado. Fui o orador de minha turma do CPOR em um ritual restrito com a oficialidade. Fomos declarados Aspirantes a Oficial da Reserva em julho de 1953. Eu estava muito satisfeito com esta conquista, pois ela correspondia a um projeto alimentado ao longo de anos de minha adolescência e eu me dei bem, gostei da vida militar na condição de aluno do CPOR. Registrarei, aqui, a seguir, para documentação, os nomes de alguns colegas de turma e de alguns oficiais, que guardei na memória. Em verdade, da minha turma de doze Aspirantes, lembro os nomes de quase todos, sendo que, de alguns, apenas os “nomes de guerra”. Turma de Aspirantes a Oficial R2,  Arma de Infantaria do Exército, de 1953, do CPOR de Belém: José Dahas, Mota[1], Rendeiro, Orlando Sampaio Silva (eu próprio), Wilson Souza, Peinado, Iran (que fez carreira como oficial médico do Exército), Dantas, José Otávio Seixas Simões, Viveiros e que me desculpem os dois caros colegas, que não são referidos, pois seus nomes, lamentavelmente, não me vêm à lembrança. Alguns oficiais instrutores: 1° Ten. Arthur Bogéa, 1° Ten. Benchimol, 1° Ten. Raul Moreira (irmão do advogado Flávio Moreira), 1° Ten. Chaves, 1° Ten. Meirelles, 1° Ten. Iran Loureiro (todos infantes), Cap. Nogueira (artilheiro). Quando ingressei no CPOR, a corporação era comandada por um capitão[2], enquanto era aguardada a nomeação de um oficial superior para a função, o que veio a ocorrer depois de alguns meses, quando assumiu o Comando o Maj. Affonso Miglio. O Major Miglio ficou no comando até ser sucedido pelo Ten. Cel. Argens de Monte Lima, que era nosso comandante quando fomos declarados Aspirantes a Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro.

         Quando estávamos no segundo ano, em janeiro de 1953, nós nos encontrávamos acampados na área do IPEAN, nos arredores de Belém, quando o acampamento foi visitado por um oficial superior (cujo nome não memorizei); não tenho certeza se esse oficial pertencia ao Estado Maior da 8ª Região Militar ou se ele se encontrava em passagem por Belém em uma viagem a diversos Comandos Regionais do Exército. Na noite desse dia, esse oficial  projetou um filme sobre Adolf Hitler e sua estratégia militar na II Guerra Mundial. Tratava-se, evidentemente, de um filme de propagando de Hitler e da Alemanha nazista, conforme o material cinematográfico preparado por Gebels, o ministro da propagando do governo do Partido Nazista. A projeção foi assistida por todos os alunos e por oficiais e sargentos participantes do acampamento. O oficial visitante demonstrou grande simpatia pelo personagem do filme   – Hitler, que aperecia em uma cena muito conhecida, em companhia de oficiais alemães, na Toca da Raposa –    e, admiração pela sua ação na guerra. Terminada a projeção, os assistentes não fizeram perguntas, nem comentários. Este episódio é de marcante poder simbólico da situação político-ideológica pela qual o país estava passando, na qual alguns militares eram destacados protagonistas.

         Nos últimos meses de 1955, fui convidado a fazer um estágio no 27º Batalhão de Caçadores, de Manaus, Amazonas. Aceitei o convite, pois o estágio, de 15 de dezembro de 1955 a 15 de março de 1956, coincidiria com as férias da Faculdade. Segui para Manaus em companhia de seis colegas, dos quais registro os nomes do Wilson Souza, do Peinado, do Falesi (todos da Infantaria) e do Carvalho (Carvalhinho [da Intendência]) e que me desculpem os outros, cujos nomes não recordo. Éramos seis Aspirantes de Infantaria e um de Intendência. Eu era o mais antigo. A viagem de Belém a Manaus foi em um DC-3 militar, da Força Aérea Brasileira. Esta foi a primeira viagem de avião que fiz em minha vida. Eu tinha, então, 24 anos de idade. Fiquei no estágio em Manaus durante três meses, residindo no quartel do 27° B.C., experiência que me foi muito grata[3]. No 27° B.C., encontramos uma oficialidade muito cordial, companheira e amiga, dentre os quais lembro dos nomes do Major Nobre, Sub-Comandante do Batalhão, do 1° Tenente Gazineu, do 1° Tenente Aquino, e do 2° Tenente Drummond, estando os dois últimos nos comandos de Companhias. Todos da Arma de Infantaria. Durante nosso estágio, chegaram do Rio de Janeiro três Aspirantes da ativa, recém saídos da Academia Militar, dos quais recordo os nomes do Aspirante Mendonça e do Aspirante Távora (ambos infantes), nossos diletos companheiros de farda.

         Durante o estágio, fomos incorporados às Companhias,  participamos de manobras militares de adestramento e, de um exercício simulado de combate por ocasião da realização da inspeção da Unidade por um oficial superior do Estado Maior da 8ª Região Militar. Na ocasião da inspeção, no campo de batalha ou teatro de operações, no “combate”, eu comandei um pelotão, que deveria conquistar um morro (o Morro do Rádio) sobre o qual estariam as tropas inimigas (na realidade, lá estavam o Major que realizava a inspeção acompanhado dos coroneis comandantes da guarnição de Manaus e do 27° BC e de outros oficiais). Na véspera da encenação da batalha no campo, todos os militares do 27°BC que participariam do “combate”, oficiais e praças, estivemos treinando, na prática, a ação de “conquista” de terreno que realizaríamos no dia seguinte. Para atingirmos o morro objeto de nossa ação, no treinamento, atravessamos a pé, sem dificuldades, um estreito e raso igarapé (riacho). O tempo estava bom. Porém, durante a noite, caiu uma chuva torrencial sobre Manaus e áreas vizinhas. Ao amanhecer, a chuva havia passado. Seguimos todos para o cenário de operações. Assumi o comando do pelotão, coloquei os combatentes em forma e na posição de alerta e, na hora aprazada, partimos acelerados (e não celerados…) para o ataque. Chegamos ao igarapé e verificamos que o mesmo, com as águas da chuva noturna, havia aumentado o seu volume. Autorizei o corneteiro a dar o toque de avançar e atacar. Nos lançamos às águas, mas verificamos que não dava pé; não tínhamos como voltar e se impunha o cumprimento da missão; então, detarminei que atravessássemos o curso dágua a nado. Porém, ao concluirmos a curta travessia, constatamos que alguns fuzis, um fm e diversos capacetes haviam ficado nas águas do riacho. Com ordem superior, o exercício foi suspenso antes que avançássemos para o assalto às posições “inimigas” instalados na elevação. Estávamos todos encharcados. Soldados mergulhadores se empenharam na busca das armas, que foram recuperadas. Perdemos alguns capacetes, que foram levados pela correnteza. Os oficiais superiores desceram do morro, inclusive o oficial Inspetor, que elogiou a todos nós pela coragem e determinação na ação, com destaque para mim pelo zelo, ânimo e entusiasmo no cumprimento da missão que me fora confiada e pela bravura no comando do pelotão no exercício de combate. Foi uma experiência marcante e inesquecível.

         Quando me encontrava estagiando no 27 BC, ocorreu  uma das tentativas de golpes militares contra o presidente Juscelino Kubitschek, levante armado que teve início no dia 11 de fevereiro de 1956 conduzido por oficiais da FAB (cf. acima). Por esse motivo, ficamos “de prontidão” com a oficialidade e a tropa presentes no quartel, todos armados e portando uniformes de campanha, os fusis carregados e ensarilhados. Não foi necessário o nosso deslocamento para o enfrentamento com os insubordinados, que foram dominados por tropas de unidades militares sediadas no Pará.

         Também ocorreu um fato surpreendente e incomum que, por suas características, teria algo a ver com o “espírito do tenentismo”.  No período em que nós, os aspirantes paraenses, fazíamos o estágio   – conforme foi referido acima -, chegaram, para servir no 27° BC, aqueles três aspirantes a oficiais recém-saídos da Academia Militar das Agulhas Negras acima referidos. Portanto, eles eram militares de carreira, da ativa do Exército. Houve uma perfeita integração entre nós e os recém-chegados, da mesma forma como já vinha ocorrendo entre nós e os demais oficiais do 27° BC e do Comando da Guarnição de Manaus. Porém, paralelo a estas anotações da rotina militar, procederei, pela sua relevância, o seguinte registro factual: Existe   – hoje menos, há anos passados, havia mais –   uma rivalidade preconceituosa entre amazonenses e paraenses, situação psicossocial esta que foi forjada historicamente, desde a época em que havia a Província do Grão-Pará, que englobava o hoje Estado do Amazonas, e cuja capital era Belém. Os amazonenses lutaram para conquistar sua autonomia. Então, voltando à época do estágio: Encontrando-nos em Manaus, em alguns momentos, esta antiga oposição regionalista veio à tona no relacionamento entre aspirantes paraenses e pessoas da cidade de Manaus. Foi assim, em um jogo de volei no qual se enfrentaram o time de oficiais do 27° BC (entre os quais se encontravam alguns aspirantes paraenses) e a equipe do Clube Rio Negro da elite social de Manaus. Por pouco não houve conflito violento entre os contendores com a participação da assistência. Porém, o episódio de grande relevância, ao qual me referirei, foi outro: Na noite de um dia em que nós havíamos recebido nosso soldo (ordenado), encontrando-me eu de serviço no quartel como Oficial de Dia, alguns colegas decidiram ir ao bairro comercial central da cidade. Eu e alguns outros aspirantes não fomos, ficamos no quartel (eu não poderia ir mesmo). O grupo que saiu se compunha de aspirantes da reserva estagiários e aspirantes da ativa. Não sei se algum tenente (da ativa) integrava o grupo. Nesta noite, ocorreu um grave incidente envolvendo esses militares e policiais civis amazonenses. Desconheço a causa e as circunstâncias em que o evento foi deflagrado. O grupo de jovens oficiais invadiu uma Delegacia de Polícia da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas localizada no centro da cidade, dominou os policiais presentes, que ficaram acuados, e depredou as dependências do órgão policial. A mim, como Oficial de Dia, estes acontecimentos violentos e extraordinários não foram comunicados, da mesma forma que não foram, oficialmente, levados ao conhecimento da hierarquia do Batalhão por outras vias normais, regulares e regulamentares (cf. o RDE-Regulamento Disciplinar do Exército). No dia seguinte, o governo do Estado do Amazonas publicou, na imprensa, uma nota oficial denunciando a intervenção violenta de oficiais do Exército em uma dependência pública do Estado. O Comando da 8ª Região Militar, sediado em Belém, e ao qual a Guarnição de Manaus ficava subordinada, em resposta, publicou uma nota na imprensa apasiguando os ânimos, minimizando o ocorrido e manifestando a integração cordial existente entre militares e civis no âmbito de jurisdição da Região Militar. O conflito militar/civil não foi além daquela grave ocorrência. O Coronel Comandante do 27° BC, comentando, no quartel, o ocorrido, disse estar a questão resolvida com a interveniência da hierarquia militar, que o fato já estava superado e que o episódio não passara de uma “ação tenentista”! O Presidente da República, à época, era Juscelino Kubitschek de Oliveira e, no Estado do Amazonas, estava no governo Plínio Ramos Coelho.

         Outra ocorrência violenta também teve lugar durante o nosso estágio no 27° BC. Em uma manhã de Sábado, uma parte de nosso grupo de aspirantes da reserva estagiários, entre os quais eu me encontrava, saiu para fazer compras no comércio. Ao retornarmos para o almoço, encontrávamo-nos em nosso alojamento trocando de roupas. Um dos colegas havia comprado um calção de banho, que vestiu e, em seguida, subiu em sua cama, onde, quase que infantilmente, ficou pulando em uma demonstração de satisfação com a sua aquisição. Foi quando entrou no alojamento o nosso colega aspirante da reserva, que se encontrava de serviço como Oficial de Dia. Ele estava uniformizado e armado com sua arma carregada   – como não poderia deixar de estar -,     e caminhou  na direção do colega que se encontrava sobre a cama de calção. Eu me encontrava sentado em minha cama, abaixado, desamarrando o meu sapato. Entre a minha cama e a do colega do calção se encontrava outro colega de pé ao lado de sua cama. Foi quando vimos o colega Oficial de Dia sacar a pistola do coldre de seu uniforme, e, como se estivesse participando da alegria e da brincadeira do colega do calção, a quem apontou a arma, estampando um sorriso na face, disse: “Vamos ver se sai uma balinha daqui” e detonou a pistola. O projétil passou por perto das minhas costas, seguiu pelo lado do colega que se encontrava de pé e atingiu o colega que estava de calção de pé sobre a cama. A bala atingiu-o na coxa próximo da virilha e do saco escrotal, atravessou a coxa e foi se alojar na parede ao lado. A vítima caiu sobre sua cama com dor e  sangrando pelo ferimento. De imediato,  eu me dirigi ao colega Oficial de Dia, chamei-o de louco, mandei que ele recolhesse a arma a seu coldre, disse ser ele responsável pelas conseqüências de seu ato e corri até a enfermaria do quartel, de onde veio um enfermeiro militar, que prestou os primeiros socorros ao ferido. Este, logo em seguida, foi internado no Hospital Militar do Exército. A vítima, depois de alguns dias de tratamento, estava com o ferimento sarado. Foi aberta uma sindicância no quartel, sob a presidência de um capitão, em conseqüência da qual, o autor do tiro foi punido com um mês de reclusão (não encarcerado) no interior do quartel. De meu ponto de vista, a punição deveria ter sido mais severa, com o desligamento do aspirante irresponsável    – ou responsável! –   do estágio em que se encontrava, além das demais conseqüências legais. O autor do disparo, conforme testemunhamos, não tinha a intenção de matar, nem de provocar lesão corporal na vítima, mas assumiu o risco dessas ocorrências ao disparar sua arma em uma “brincadeira” desatinada. Ele cometeu uma lesão corporal culposa. A lesão corporal poderia ter sido mais grave e a vítima poderia, mesmo, ter sido atingida mortalmente ou ter ficado com alguma deficiência física. Colocou em risco de vida todos nós que estávamos no alojamento. No episódio inusitado, vítima e autor tiveram sorte! Mas, o ato de atirar foi tresloucado, idiota, imbecil, parvo. Eu sempre considerei esse colega autor do tiro uma pessoa possuidora de um certo grau de insuficiência (deficiência?) mental. Seu ato nesse dia demonstrou que meu diagnóstico estava correto.

         Durante o estágio, estávamos acampados, quando, em uma noite, um Capitão que comandava uma das Companhias do nosso Batalhão, reuniu os Aspirantes, informalmente, em torno dele. Devo ressaltar que o Capitão, em referência, integrou a Força Expedicionário Brasileira-FEB e foi ferido em uma de suas perna, no campo de batalha na Itália. Foi um bravo combatente contra as forças nazistas alemãs. Naquela reunião, no nosso acampamento, o oficial fez uma explanação sobre o risco que estava correndo o Brasil de ser dominado pelos comunistas. Disse que a única forma da nação enfrentar o perigo comunista era mediante a tomada do poder da República pelas Forças Armadas. Estávamos no transcurso do mês de fevereiro de 1956, quando Juscelino Kubitscheck acabara de assumir à Presidência da República.

         Para amenizar: Durante o estágio, fundamos um Clube Social dos oficiais do 27° BC e da Guarnição Militar como um todo. Fui escolhido como secretário da entidade. Nosso clube, ainda quando nos encontrávamos em Manaus, promoveu um churrasco muito concorrido na invernada da Guarnição.

         A criação de nosso Clube, de certa forma, ocorreu no âmbito das medidas do Comando para controlar o uso de bebidas alcoólicas pelos militares. Estava havendo um excesso, pelo menos entre os oficiais subalternos, círculo de convivência de eu paticipava. Um dia, por determinação do Comandante do Batalhão, o chefe do Serviço Médico da corporação, um 1° Tenente Médico, fez uma palestra, para a coletividade da unidade militar, expondo e alertando para os riscos para a saúde e para os comportamentos individuais e grupais decorrentes do uso descontrolado de bebidas alcoólicas. Já havia ocorrido alguns episódios desagradáveis em meio a essa situação comportamental dos militares. Um Tenente (bom de briga!), uma noite, se envolveu em um conflito, na rua, tendo ficado com seu corpo todo lanhado. Em outra ocasião, estando eu de serviço como Oficial de Dia, tive que me deslocar até um bar localizado ao lado do 27° BC, para trazer de lá para o  interior do quartel um sargento que estava, também, de serviço, como Sargento Adjunto; ele estava completamente embriagado. Além de outros episódios desagradáveis! A partir da palestra por nosso médico e do funcionamento de nosso clube, as libações alcoólicas foram muito reduzidas em nosso meio.

         No final do estágio, fui promovido a 2º Tenente da Reserva – 2º Ten. R2 da Arma de Infantaria, e fui convidado a permanecer servindo no mesmo Batalhão por mais um ano, no final do qual seria promovido a 1º Tenente, ou, se, ao invés de um ano, lá ficasse por dois anos, seria promovido a Capitão. Eu estava tentado a aceitar o convite. Para aceitar esse convite, por um lado, eu teria que adiar o término de meu curso de Direito por dois ou três anos, por outro lado, teria que ficar longe, por tanto tempo, de minha noiva Edith. Perguntei ao oficial que fez o convite se, em conseqüência de minha concordância, eu poderia fazer carreira na ativa. Era impossível. Não aceitei o convite e retornei (naquele mesmo avião da Força Aérea) a Belém. Anos depois, em 1963, recebi novo convite, então, para estagiar no 26º B.C., em Belém. Se a quando daquele convite que me foi feito em Manaus para continuar o estágio eu pudesse realizar o trabalho militar em Belém, ao invés de naquela cidade, eu teria concordado, pois não me criaria aqueles problemas a que me referi. Porém, em 1963, eu já era formado e tinha dois empregos: era professor da UFPA e técnico da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia-SPVEA (depois SUDAM), e estava ganhando muito bem com as duas fontes de remuneração. Se eu fosse para o Exército estagiar, teria que abrir mão de um dos salários. Ora, eu já era casado, tinha filhos, não poderia perder renda. Não aceitei o convite. Esta minha decisão teve outro aspecto positivo: se eu houvesse, como oficial da reserva, voltado à ativa do Exército como estagiário, quando houve o golpe militarista, eu lá estaria e me sentiria desconfortável!

          Nós os oficiais da reserva vivemos uma situação de compartilhamento sociológico que pode ser menos ou mais ambígua para uns ou para outros, pois somos, concomitantemente, militares e civis. Somos militares que não estamos na ativa, mas que podemos ser chamados a prestar serviços ativos quando necessários; somos civis, posto que, não estando na ativa (militar), vivemos na sociedade civil como qualquer outro cidadão não militar. Nesta situação, como civis, participamos normalmente das diversas enferas da vida civil, profissional, política, cultural etc. Aliás, há oficiais da ativa que, se sentindo interessados e com aptidão para desempanhar funções na ordem civil da sociedade, nela ingressam, sem se desligarem da corporação militar, e vêm a desempenhar diferentes papéis na vida política e administrativa. Há, também, os militares combatentes, da ativa que optam pela vida civil e pedem sua tranferência para a reserva. No que toca a mim pessoalmente, não sinto ambigüidade nesta dupla participação, ou seja, ser eu um ser civil e militar (da reserva). Trata-se de uma situação tranqüila fruto de uma opção volitiva, que fiz muito cedo na vida. Poderia ser um militar da ativa da mesma forma que sou um profissional civil. Se militar da ativa fosse, exerceria minha função com profissionalismo, ou seja, com dedicação e rigor exclusivamente profissional na corporação militar. Mas, não o sou; sou um civil e, já agora, um civil de idade avançada, que, por esta razão, não pode ser chamado ao serviço militar ativo. Sou um profissional  que se sente tranqüilo na vida civil, na qual me considero realizado. “Onde vás tu, esbelto infante…”


[1] O Mota. quando ingressou em nossa turma do 1° ano, era cabo do Exército. Durante alguns dias, já aluno do CPOR, ainda usava seu uniforme de cabo, até que o Comandante determinou que ele passasse a usar o uniforme de aluno. O interessante foi que, durante muito tempo, os sargentos instrutores ainda se dirigiam ao nosso colega como “cabo” Mota. Quando fomos declarados Aspirantes, nós fizemos chacota com ele chamando-o de “Aspirante Cabo Mota”…

[2]  Não recordo o nome do capitão comandante  – como, também, não lembro os nomes de diversos outros oficiais instrutores. Mas, este oficial que comandou o CPOR já se encontrava no posto de capitão há dez anos, quando, então, foi promovido a Major e foi removido para outra unidade militar.

[3] Quando eu me encontrava fazendo o estágio em Manaus, a Edith, minha noiva, foi me visitar e nós dois passamos belos dias em Manaus.