M – Pós-Graduação em Ciências Sociais (Antropologia) – Escola de Sociologia e Política de São Paulo

         No início do mês de março do ano de 1964, veio toda a família    – eu, Edith, José Jorge e Álvaro –    para São Paulo; foi quando eu fiz minha pós-graduação em Ciências Sociais na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Estávamos há um mês em São Paulo, quando aconteceu o golpe ou contra-golpe militarista de 1° de abril.

         Fui aluno dessa Escola Pós-Graduada durante 1964 e 1965, período em que freqüentei e fui aprovado em dezesseis cursos, que funcionavam pela manhã, à tarde e à noite, os quais me garantiam os créditos necessários a fazer o mestrado e o doutorado. A Edith estagiou e fez sua especialização em Psiquiatria no Hospital das Clínicas-USP; fez, também, um curso de psicoterapia no Instituto Saedes Sapientiae e um curso de medicina psicossomática no Instituto de Gastroenterologia de São Paulo. 

         Quando eu era aluno na Escola de Sociologia e Política, eu tinha professores brasileiros, como Cândido Procopio Ferreira de Camargo, Antônio Rubbo Müller e Iroshi Saito (nipo-brasileiro), mas grande parte dos professores dos cursos era constituída de norte-americanos, tais como Roger Owen, Dorsey, Rosen e Cornell. Um dos meus professores de Antropologia, Roger Owen, durante o período, desenvolveu uma pesquisa nacional sobre o tema “o uso do álcool no Brasil”. Ao longo do segundo semestre de 1964, fui contratado, com ótimo salário, pelo referido professor como seu assistente de pesquisa. Ele, eu e mais outro colega, também assistente, percorremos grande parte do país desenvolvendo a pesquisa, inclusive no Sudeste, no Nordeste e na Amazônia. Viajamos, predominantemente, de avião, mas, também, de carro e de ônibus. Estivemos nas capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Natal, Fortaleza, Terezina, São Luiz, Belém e Manaus) e em cidades do interior (Ribeirão Preto, Rio Claro, Petrolina, Montes Claros, Juazeiro do Norte, Caruaru, Sobral, Santarém, etc.). Foi uma marcante experiência de pesquisa sócio-antropológica, que foi acrescida pelo convívio cotidiano com o professor Owen, um antropólogo e uma figura humana incomum.

Retorno a Belém

         No início de 1966, eu e minha família retornamos a Belém. Em nossa cidade, eu e Edith assumimos nossas funções de professores, respectivamente, na FFCL e na Faculdade de Medicina, UFPA. Logo, convidado pelo Diretor em Exercício da Faculdade, Napoleão Figueiredo, passei ao regime de trabalho em tempo integral e dedicação exclusiva, situação funcional em que me mantive até o final de 1967. No prédio em que funcionava a Faculdade, na Av. Generalíssimo Deodoro, eu passei e ter um gabinete de trabalho, o qual eu compartilhava com José Ubiratan da Silva Rosário, professor de História e meu sobrinho. Devo registrar que, quando nos encontrávamos em São Paulo, fui transferido do Departamento de Pedagogia para o Departamento de Ciências Sociais da FFCL-UFPA.  Então, no início do ano letivo de 1966, como professor deste Departamento, passei a lecionar a matéria Metodologia e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais. Concomitantemente, fui eleito Chefe do Departamento de Ciências Sociais, função para a qual fui reconduzido em março de 1968. A Edith foi aprovada no concurso para a função de Professora Assistente da Faculdade de Medicina, Departamento de Clínica Médica.

Museu Paraense “Emílio Goeldi”

         A partir 1967, tornei-me estagiário da Divisão de Antropologia do Museu Paraense “Emílio Goeldi”, sob a coordenação do antropólogo Eduardo Galvão. Até o final deste ano, as horas que eu passava em atividade no Goeldi passaram a integrar o meu “tempo integral”. Em 1968 já não me encontrava mais integrando a esse regime de trabalho. Fui estagiário nessa instituição científica até o final de 1969, com intervalos nos períodos em que assumi a Diretoria da Faculdade de Filosofia e quando fui para São Paulo, por dois meses, com licença para tratar de interesses particulares. Esta minha presença no Museu Goeldi foi decisiva no processo de minha adaptação profissional à antropologia especializando-me nos estudos de sociedades e culturas indígenas. No Goeldi convivi com colegas antropólogos, tais como, além de Eduardo Galvão, Edson Diniz, Expedito Arnaud, Protasio Frikel, Adélia Engrácia de Oliveira, Mário Simões, Dudith Shapiro entre outros e outras. No Museu Goeldi, eu participava das reuniões de discussão dos projetos de pesquisa em andamento e tinha a minha escrivaninha, o meu local de trabalho, em nossa sala, a dos antropólogos sociais, e lá permanecia às manhãs e parte das tardes, sendo que nestas, concomitantemente, se encontravam as horas dedicadas às aulas na  Faculdade de Filosofia. Não posso esquecer de anotar, nesta memorização, a influência que o professor Roger Owen exerceu sobre mim para que eu me dedicasse à pesquisa antropológica. Owen era um antropólogo norte-americano que pesquisava sociedades indígenas, era professor da Universidade da Califórnia, em Sta. Bárbara, USA.

Os Tiriyó

         Pouco depois de haver retornado a Belém, em abril de 1966, tive uma oportunidade ímpar de visitar um grupo indígena. Integrei, representando a FFCL, uma expedição ao grupo indígena Tiriyó, de língua karib, organizada e coordenada por Protásio Frikel (frade franciscano e antropólogo do Museu Goeldi) e por Noel Nutels (médico, que dava assistência às populações indígenas). Os índios Tiriyó viviam isolados, porém em contato permanente com uma missão religiosa católica coordenada por Protásio e participavam de contactos esporádicos com o pessoal da Aeronáutica, que mantinha um campo de pouso próximo à aldeia Tiriyo. Esta aldeia se localiza no extremo norte do Pará, nos contrafortes da serra do Tumucumaque, às proximidades da  fronteira do Brasil com o Suriname. Nela também viviam algumas famílias de outros grupos indígenas de língua karib   – Wáyana e Xarúma -, que habitavam na mesma sub-área indígena e que estavam sendo atraídos para a aldeia Tiriyó pelos missionários franciscanos. Estava em implementação o Projeto Trinômio Tiriyó, forjado pela Força Aérea Brasileira, no qual as partes constituintes eram a FAB, a Missão Católica Franciscana e o índio. A Força Aérea “pretendia criar uma série de postos para o melhor controle da Fronteira Norte” (cito Protásio Frikel)[1]. O pessoal de nossa expedição era formado por pesquisadores e outros profissionais que constituíam um grupo interdisciplinar oriundos de diferentes instituições de pesquisa e da Aeronáutica. Nele se encontravam membros do Museu Goeldi, tais como o antropólogo-frade missionário Protásio Frikel e a lingüista Ruth Wallace; o médico pneumologista Noel Nutels das Unidades Sanitárias Aéreas-USA, uma entidade em que se associavam o Serviço de Proteção ao Índio-SPI (depois FUNAI) e a Força Aérea Brasileira-FAB; eu, professor da FFCL-UFPA; pesquisadores de áreas das ciências biológicas do Instituto Evandro Chagas; assim como o Dr. Pedro Tupinambá, oficial médico, e o cirurgião- dentista Umberto Albuquerque Queiroz Brasiliense (dentista civil), sendo estes dois últimos da FAB. Eu já conhecia os dois coordenadores da expedição, a lingüista Wallace, a pesquisadora Gondim do Instituto Evandro Chagas e os representantes da Aeronáutica (inclusive, Humberto A. Queiroz Brasiliense[2] havia sido meu vizinho na Avenida Ceará, em Canudos, Belém). Foram poucos dias na aldeia Tiriyó, porém quase a totalidade (digo “quase a totalidade”, cf. nota de rodapé abaixo) dos integrantes da equipe se dedicou arduamente e com grande responsabilidade científica aos seus misteres nas pesquisas de campo. Eu fiz uma abordagem etnográfica na sociedade indígena com ênfase no aspecto educacional[3]. A realização de uma pesquisa de  campo em um grupo indígena isolado,  nos ermos da fronteira do Brasil com o Suriname,  o contato com os indígenas em situação de pesquisa pela primeira vez, foi uma vivência marcante e de profundo significado psico-social para mim. Esses dias foram decisivos no sentido de reforçar minha decisão de prosseguir de forma definitiva minha vida acadêmica e de cientista social como um antropólogo indigenista. Poucos meses antes, em São Paulo, quando terminei meus cursos na Escola de Sociologia e Política, em dezembro de 1965, fui com um grupo de colegas ao litoral sul de São Paulo, ocasião em que estivemos em curta visita a algumas famílias de índios Guarani, que viviam na periferia da cidade de Peruíbe. Este foi o meu primeiro contato com índios depois de adulto. Digo isto porque, quando eu ainda era criança, um dia estava com o meu pai na Estação de São Brás da Estrada de Ferro de Bragança, ocasião em que chegou um trem no qual vieram diversos índios e índias. Alguém disse que eram índios Urubu, ou seja, muito provavelmente aqueles indígenas faziam parte do grupo tribal Urubu-Kaapor da área do Rio Gurupi. Para mim esta foi uma experiência surpreendente e chocante: eu estava vendo índios em pessoa  pela primeira vez na vida.

Temas e Pesquisas para o Mestrado

         Quando viemos para São Paulo, em março de 1964, eu ainda me encontrava fortemente comprometido com questões acadêmicas educacionais, posto que eu era professor de Didática, integrava o Dept. de Pedagogia e havia assumido um compromisso teórico e prático com os processos educativos. Era um educador. No entanto, vim fazer, em São Paulo, a pós-graduação em Ciências Sociais. Terminado o primeiro ano, pedi à UFPA renovação da licença por mais um ano, para continuar os cursos. Então, foi tomada a decisão de que a licença seria renovada e eu seria transferido para o Dept. de Ciências Sociais da FFCL, o que, de fato aconteceu (cf. acima). Deixei de ser professor de Didática, mas continuei pensando o problema educacional à luz das ciências sociais.

         Foi por isso que, já em 1965, quando eu teria que iniciar o trabalho de minha dissertação de mestrado, entrei em contacto com o professor Oracy Nogueira, da USP, sociólogo, e convidei-o para ser meu orientador em uma dissertação sobre a formação do professor do curso primário no Pará. O professor aceitou meu convite com entusiasmo. Comecei a trabalhar no tema. Ocorre que outro professor, Iroshi Saito, sociólogo-antropólogo, com o qual eu havia feito dois cursos de pós na Escola de Sociologia e Política, procurou despertar meu interesse pelo estudo das comunidades de imigrantes japoneses existentes na Zona Bragantina, no Pará. Ele tinha a expectativa de que eu faria meu mestrado com o material que eu coletasse na pesquisa de campo. Sem ainda ter uma definição, voltei ao Pará, no início de 1966, e passei a trabalhar nos dois projetos de pesquisa. Desenvolvi, em profundidade, uma pesquisa sócio-antropológica nas comunidades de japoneses estabelecidas na Zona Bragantina e, em particular, em Sta. Isabel do Pará. Mas, eu não tinha financiamento para desenvolver nenhum dos dois projetos. Com o passar do tempo, passei a me interessar de forma crescente por outras questões sociológicas e antropológicas, entre estas, a temática indígena, que aos poucos me afastavam do compromisso com o mestrado no campo estrito da sociologia da educação. Fiz diversas pesquisas sociológicas, entre as quais, sobre o cooperativismo no Pará. Eu havia freqüentado dois cursos sobre cooperativismo na pós-graduação em São Paulo. Alunos meus na Faculdade de Filosofia participaram da pesquisa de campo sobre cooperativas paraenses, entre esses, Samuel Sá, que, depois, viria a ser professor da UFPA. Nesta mesma época, convidado por Iroshi Saito, vim a São Paulo apresentar um trabalho com abordagem sócio-antropológica sobre os japoneses em Sta. Isabel do Pará, no simpósio comemorativo dos 50 anos da emigração japonesa para o Brasil. Porém,  sem financiamento, suspendi meus trabalhos nos dois projetos, adiei sem prazo a idéia do mestrado e fui paulatinamente me enfronhando nas questões universitárias internas da FFCL e da UFPA.

Incentivos à Pós-Graduação

          Também, a propósito de minha decisão de conquistar os títulos de pós-graduação, quero referir-me a dois fatos importantes. O primeiro: próximo ao final do ano de 1965, quando eu fazia a pós-graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o antropólogo norte-americano Roger Owen, referido acima, ofereceu-me a possibilidade de fazer meu doutorado nos Estados Unidos, tendo, inclusive, me propiciado uma bolsa de estudo de inglês na União Cultural Brasil-Estados Unidos, em São Paulo, a fim de aperfeiçoar-me nessa língua, curso que cheguei a freqüentar. Tive de abrir mão do convite de vez que eu não poderia me afastar de minha família e esta era muito grande (eu, Edith, três filhos ao tempo, e minha mãe) para ser mantida naquele país. O segundo fato: tendo dado prosseguimento aos meus estudos sistemáticos no campo da Antropologia Sócio-Cultural, na seqüência da pós-graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, passei a manter correspondência, ainda que a largos intervalos, com Claude Lévi-Strauss (troca que ocorreu enquanto o insigne antropólogo viveu). Desde algum tempo, antes de eu ser aposentado pelo governo militarista, em 1969 (v. abaixo), eu mantinha entendimentos com Lévi-Strauss sobre a possibilidade de este notável professor e antropólogo me receber como seu orientando para a realização do doutorado em Paris. Então, pouco depois da ocorrência da lamentável “aposentadoria”, recebi de Lévi-Strauss a comunicação de que ele poderia ser meu orientador na pós-graduação. Então, eu deveria ir para a França como bolsista do CNPq. Porém, este projeto também teve de ser abandonado, porque, em minha condição de “punido” pelo regime político-administrativo vigente, eu não podia ser bolsista de uma agência governamental.


[1] Cf. “Dez anos de aculturação Tiriyó 1960 – 70”, Protásio FRIKEL, Publicações Avulsas do Museu Goeldi N° 16, CNPq., INPA, Belém, 1971.

[2]  Humberto Brasiliense, como dentista civil da Aeronáutica, de quando em vez se dirigia, integrando expedições, a aldeias indígenas localizadas no território nacional, ocasiões em que, ao lado de sua atividade profissional, também, batia muitas fotografias. Porém, esta participação na Expedição Tiriyó, certamente, foi sua última ida a uma aldeia indígena e o início do fim de sua atividade no Ministério da Aeronáutica. Tudo decorreu da maneira como o referido dentista atuou na aldeia Tiriyó. Sua função era fazer um diagnóstico da situação odontológica dos índios e tratar os que necessitassem, da maneira que fosse possível naquelas circunstâncias. Porém, enquanto muitos indígenas de ambos os sexos e de diferentes idades, alguns sentindo dor de dente, esperavam, sentados no chão, a atenção dentária, Brasiliense passou os dias filmando a aldeia e os índios, inclusive organizou uma cena, que filmou, na qual atuavam dois rapazes índios, uma ficção cinematográfica, em que um dos protagonistas  violentamente matava o outro com o uso de um pedaço de pau, filmagem que foi interrompida com certa rispidez e rigor por Protasio Frikel. Além de não ser de cineasta a função do dentista na equipe, ele estava, pela via cinematográfica, deturpando ou falseando o comportamento dos índios Tiriyó, que estavam “pacificados” há seis anos, e não mais faziam guerras. Outras atitudes do dentista chocaram os demais integrantes da expedição, principalmente os que não conheciam Humberto: foi o fato de ele, quando nos preparávamos para embarcar de volta a Belém, ter dançado entre os índios (que não estavam dançando), como se fosse um deles; e, para surpresa geral, todos os dias, nas tardes, ele ia pescar no igarapé, que passa próximo da aldeia, e só às 17 horas voltava da pesca trazendo alguns peixes capturados, para, só então, se aproximar dos indígenas que o esperavam e fazer algum trabalho odontológico. Noel Nutels e Protasio Frikel, os coordenadores, ficaram chocados com tais comportamentos do dentista Humberto Brasiliense. Pouco tempo depois de nossa volta dos Tiriyó para Belém, em um encontro com Humberto (não lembro se casual ou se ele me procurou), ele me pediu orientação sobre como deveria se comportar em um trabalho entre os índios! Estava preocupado.

[3] Cf. Orlando SAMPAIO SILVA – “Os Tiriyó: Notas sobre uma situação de contacto intercultural”. In Dedado, N° 13, Museu de Arqueologia e Etnologia-MAE/USP, São Paulo, 1971.

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