N – 1968. Vice-Diretoria e Diretoria da FFCL-UFPA

         As agitações estudantis, também no Pará, exacerbaram-se a partir de maio de 1968, como reflexo do que estava ocorrendo em outras partes do Mundo Ocidental, principalmente na Sorbonne, em Paris. Um dos ícones intelectuais dos estudantes, certamente o principal, nessa luta, era o filósofo Marcuse. O corpo docente da UFPA também entrou em ebulição político-universitária. Lutávamos para que fosse eleito novo Reitor, de vez que o então Reitor   – José Rodrigues da Silveira Neto -, seguindo os ditames do sistema político vigente, já se encontrava ocupando o cargo havia nove anos sem que houvesse sido reconduzido democraticamente por eleição à função, fato que infringia o Estatuto da Universidade; José da Silveira, então, pretendia mesmo permanecer na alta direção universitária como Reitor pro-tempore[1]. Na Faculdade de Filosofia, estávamos com um Vice-Diretor   – Arthur Napoleão Figueiredo –   no exercício da Diretoria havia seis anos sem recondução formal e sem que houvesse, em todos esses anos, eleições para  Diretor, infringindo, dessa forma, o Estatuto e o Regimento Interno da Faculdade. Em nosso estabelecimento de ensino superior foi desencadeado um movimento para que fosse corrigido esse estado de coisas administrativas ilegal, movimento este que foi coordenado pelos colegas Orlando Costa e Roberto Santos e, em menor escala, por mim (porque eu ocupava uma função de direção,  era o Chefe do Dept. de C. Sociais). A Congregação da Faculdade aprovou o parecer do colega e jurista Orlando Costa, que considerava ilegal a presença de Napoleão Figueiredo no exercício da Diretoria. Foi então que fui eleito, pela Congregação, Vice-Diretor da Faculdade e assumi, imediatamente, a Diretoria na condição de Vice-Diretor no exercício da Diretoria. Nesta eleição houve democraticamente dois concorrentes, um da corrente progressista, eu, e o outro candidato dos conservadores, Antônio Gomes Moreira Júnior. Como Diretor da Faculdade, de imediato, convoquei a Congregação para eleger a lista tríplice objetivando  a nomeação do Diretor, o que de fato veio a ocorrer. Elegemos uma lista encabeçada por Benedito Nunes, que esperávamos viesse a ser o Diretor nomeado. Como o professor Benedito se encontrava fazendo um curso em Paris, ele não aceitou a presença de seu nome na lista. Assim, estando vago o lugar de cabeça da lista tríplice, a Congregação de Filosofia (da qual participavam três representantes discentes), elegeu-me, por unanimidade (menos um voto, que foi o meu), para ocupar o referido lugar na lista tríplice, em uma aprovação simbólica à administração que eu estava desenvolvendo à frente da Faculdade e manifestando, desta forma, a vontade do colegiado docente de que eu fosse nomeado Diretor. À época, as listas tríplices com esta finalidade eram encaminhadas ao Ministério da Educação e o Diretor era nomeado pelo Presidente da República. Ocorreu que, para o segundo lugar da lista tríplice, havia sido eleito com pouco mais de 50% dos votos da Congregação, Alfredo Bonef, um professor conservador, de direita[2]. A listra tríplice ficou assim constituída: 1° – Orlando Sampaio Silva, 2° – Alfredo Bonef, 3° – Carlos Coimbra. O país se encontrava sob um sistema político autoritário claramente de direita. Como seria de se prever, o nomeado para a função de Diretor da FFCL foi esse colega conservador, Bonef, mesmo sendo ele o segundo da lista, e mesmo estando eu encabeçando a lista e tendo ele recebido muito menos que o significativo número de votos que eu recebi (cf. acima). Eu passei a Diretoria ao novo Diretor e continuei no exercício de minha função de Vice-Diretor da Faculdade, na qual me mantive até setembro de 1969. Durante o andamento do processo para a nomeação do Diretor da Faculdade, eu havia ocupado esta função durante três meses consecutivos, fase em que tive um relacionamento tenso com a Reitoria da Universidade. Em setembro de 1969, o Diretor entrou em gozo de férias e eu, como Vice-Diretor, assumi a Diretoria da Faculdade mais uma vez. Neste período em que me encontrava na Diretoria, fui, compulsoriamente, aposentado, sem direito de defesa, pelo AI 5 – Ato Institucional Nº 5 da ditadura. Aposentadoria que me assegurava apenas 50% de minha remuneração como professor titular. Passei, assim, à condição funcional de inativo.

         Exerci a diretoria da FFCL, em 1968, em um período conturbado, conforme disse anteriormente, pois, então, eram travadas as lutas estudantis pela reforma universitária. Muitos professores da Faculdade, também eu, eram a favor da reforma, que previa, inclusive, uma participação mais efetiva dos discentes nas Congregações das instituições de ensino superior. Os estudantes enfrentavam o conservadorismo da Reitoria sob a batuta de Silveira Neto e mesmo, a repressão policial. Porém, eles contavam com a minha receptividade e me apoiavam. O movimento estudantil optou pela radicalização e as lideranças dos estudantes universitários decidiram por ocupar os prédios das diversas Faculdades. Dado ao bom relacionamento que os estudantes mantinham comigo, a FFCL foi a última escola a ser ocupada.

         Nas duas oportunidades em que exerci a Diretoria da FFCL, mantive fraterno, construtivo e cooperativo relacionamento com o corpo docente e, um permanente diálogo democrático e compreensivo com o alunato. Dispensei forte apoio aos colegas professores que tinham sob sua responsabilidade a gestão de laboratórios científicos na Faculdade. Assim, ampliando o espaço útil do Laboratório de Genética, que era dirigido pelo professor Manoel Aires, destinei ao mesmo mais uma sala, ampliando, assim,  seu espaço de pesquisa, e, com o apoio do já então reitor Aloísio Chaves, foi adquirido e instalado no laboratório de Antropologia Física, que era gerido pelo professor Armando Bordallo da Silva, um aparelho de ar condicionado, que objetivava a manutenção de uma temperatura adequada à conservação dos instrumentos de pesquisa do referido laboratório. Tendo em vista a conservação do imóvel em que funcionava a Faculdade, por determinação da Reitoria da Universidade, foi refeito todo o sistema de canalização para a circulação e abastecimento de água do prédio. Dirigi com proficiência   –  conforme foi avaliado pela própria Congregação –    a administração da Faculdade em seus diversos setores pedagógicos, de pesquisa  e burocráticos. Contei com o apoio integral do nosso colegiado docente e dos alunos.

Professores da FFCL

         Cito, a seguir, nomes de professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL (meus colegas), que lá estavam entre 1958 e 1969. Referir-me-ei apenas a alguns poucos por não dispor de memória dos nomes de tantos colegas, alguns dos quais, atualmente, já falecidos. Professores: Orlando Teixeira da Costa, Roberto A. de O. Santos, Orlando Sampaio Silva (eu próprio), Francisco Paulo do Nascimento Mendes, Benedito José Vianna da Costa Nunes, Rui Paranatinga Barata, Paulo Plínio Abreu, Annunciada Ramos Chaves, José Maria Bittencourt Alves da Cunha, Amílcar Tupiassu, Daniel Queima Coelho de Souza, Octávio Mendonça, Napoleão Figueiredo, José Maria Hesket Conduru, Rui da Silveira Brito, Antônio Gomes Moreira Júnior, Max Boudin, Armando Bordallo da Silva, Manoel Aires, Ápio Campos, Angelita Silva, Carlos Cardoso da Cunha Coimbra, Antônio Vizeu, Rômulo Souza, Vicente Braga Helói, Alberto Bordallo, Albenisa Chaves, Anaíza Vergolino e Silva, José Ubiratan da Silva Rosário, Fernando Vieira, Eurides Brito da Silva, Maria Helena Coelho, Ivone Vieira da Costa Tupiassu, Maria Iracema da Frota, Edgar Porto, Leandro Pinheiro, Cupertino Contente, Alfredo Bonef, além de outros. Muitos dos colegas aí referidos também eram professores em outras Faculdades e, alguns, mesmo em escolas de nível médio. Vários desses professores constituíam o que havia de mais destacado e representativo na intelectualidade paraense.

Aposentadorias pela Ditadura

         Foram aposentados pelo governo militarista os seguintes professores da UFPA: Rui Barata (o primeiro a ser aposentado, em 1964, logo após a assunção dos militares ao poder) e Orlando Sampaio Silva (eu próprio), ambos da FFCL; Camilo Silva Montenegro Duarte, da Faculdade de Direito; Epílogo de Campos e Henry Cayate, estes dois da Faculdade de Medicina. O primeiro desses professores foi aposentado na vigência do  AI – 1 e os demais o foram com base no AI – 5. Camilo Duarte e Epílogo de Campos foram aposentados na UFPA porque, sendo deputados federais, tiveram seus mandatos cassados pela ditadura no bojo da crise relacionada com o discurso que o deputado Márcio Moreira Alves pronunciou na Câmara dos Deputados contra o sistema autoritário imperante no país. A minha aposentadoria foi um absurdo, um ato arbitrário contra o qual não havia recurso. Protesto! Ainda hoje ninguém me disse a razão dessa “punição”. É claro, eu não era a favor do golpe militar, porém, apenas essa posição política pacífica não era motivo para a imposição do drástico afastamento de minha função ativa na Universidade!

          Por uma questão de sistematização temática, registrarei, neste espaço, a seguir, fatos que ocorreram muitos anos depois.


[1] Em seu livro “O Cidadão Transeunte” (2007), Armando Mendes, em um parágrafo sobre o NAEA, à p. 116, refere-se a “uma pioneira comissão paritária de professores e alunos” [meus aplausos], a qual “Comissão trabalhara durante a efervescência estudantil de 68 menos na linha de protestos carpidores do passado do que na de prospectos portadores de futuro”. Na mesma época, na luta pela restauração, a partir de então, da democracia na alta direção da UFPA com a eleição regular e estatutária de novo Reitor, reuniram-se, no prédio da Faculdade de Engenharia, os Diretores da Faculdade de Filosofia (eu próprio), de Engenharia e de Química Industrial, contando com o apoio do Diretor da Faculdade de Direito (e, então, futuro Reitor), o professor Aloysio Chaves (mas que não esteve presente à reunião), e de outros ilustres colegas, tais como Annunciada Chaves (presente à reunião) e Clara Pandulfo (que  não esteve presente). Estávamos em tempos de ditadura, mas aspirávamos e lutávamos pela regularidade legal, contra o continuísmo administrativo, pela renovação e  pela democracia na UFPA.

[2] Como foi dito acima, concorreram duas chapas, uma  progressista e outra conservadora. O candidato para o segundo lugar na chapa progressista foi Amílcar Tupiassu, que não foi eleito.