O – Anistia; Retorno; Grupo de Antropologia; Laboratório de Etnologia e Etnografia; Aposentadoria

         Em 1986, anistiado, retornei à atividade na UFPA, depois de 15 anos de inatividade compulsória na Universidade, inatividade esta que a mim foi imposta pelo regime militar. Reassumi minha função de professor titular e passei a fazer parte do Grupo de Antropologia no CFCH. Fui eleito pelos colegas chefe do Grupo de Antropologia e do Laboratório de Etnologia e Etnografia. Em reunião do Grupo, ficou decidido que eu, além das responsabilidades inerentes a essa função de chefia, assumiria a responsabilidade de orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso-TCC e pesquisaria. Orientei alguns alunos na elaboração de seus TCCs. Dei prosseguimento à análise dos dados de campo que eu dispunha de minhas pesquisas entre os índios Gaviões, Suruí, Xikrín, Parakanán e Assuriní, do Rio Tocantins[1]. Quero assinalar aqui um fato desta época que guardo com certa mágoa em minha memória; trata-se do seguinte: apesar de estar disponível, não fui convidado, pela Coordenação da pós-graduação no Grupo de Antropologia (especialização ou mestrado), para ministrar aulas neste curso, muito embora eu fosse um professor titular e, à época, contasse com o título de Mestre em Ciência (Antropologia) (apenas para registro: alguns anos depois, realizei o doutorado). É provável que a razão para essa omissão tenha sido o fato de que, quando eu reassumi minha função na Universidade e fui trabalhar no Grupo de Antropologia, já se encontrava planejada a estrutura de ensino na pós. Anoto, também, que, após o meu doutorado, ministrei um curso na pós-graduação de antropologia, a convite do professor Heraldo Maués, então coordenador do setor. No exercício de minha função de chefia no Grupo e no Laboratório, administrei a instituição, mantive relações fraternas e construtivas com os colegas; coordenei as reuniões semanais do Grupo; mantive o necessário diálogo funcional e a colaboração com a Reitoria da Universidade e com a diretoria do CFCH, assim como com outros órgãos universitários; alimentei e estimulei o intercâmbio acadêmico, mediante correspondências, entre nossa entidade e outros centros de ensino e pesquisa nacionais e do exterior; dei início à organização da biblioteca do Grupo e do Laboratório constituída de publicações (livros e periódicos) por mim doadas e de outras que chegavam ao grupo provenientes de diversas origens, a qual (biblioteca) instalei em estantes na sala da Chefia do Grupo à disposição de todos os professores (pelo o que eu me lembro, havia nas dependências do Grupo uma biblioteca que pertencera ou pertencia ao professor Napoleão Figueiredo, a qual estava no interior da sala de um dos professores); quando deixei a direção do Grupo, ficaram fichados todos os livros e periódicos da referida biblioteca em formação; ainda na chefia do Grupo, empenhei-me na luta pela criação do Departamento de Antropologia; doei ao Laboratório a Coleção Orlando Sampaio Silva, constante de 40 peças etnográficas por mim coletadas em pesquisas em grupos indígenas e três pôsteres sobre temas indígenas. Empenhei-me, juntamente com o funcionário responsável, na conservação do acervo etnográfico-ergológico do Laboratório. Antes de eu deixar a Chefia do Grupo, o Reitor da Universidade me comunicou que a verba para a construção do prédio para a Antropologia já estava disponível, consignação para cuja obtenção me empenhei com o apoio da Reitoria. Durante este período em que estive novamente em atividade na UFPA, fui eleito representante dos professores titulares no Conselho do CFCH. Nessa mesma época, por designação do Reitor, presidi uma comissão constituída de professores de diversas formações acadêmicas e de diferentes Departamentos da UFPA, que tinha por escopo estudar as questões dos agravos ao meio ambiente amazônico, assim como propor medidas para a preservação do eco-sistema regional. Presidi reuniões da referida comissão e proferi, em diferentes dependências da Universidade, diversas palestras sobre nossa temática. Publiquei, entre outros: “Aspectos empíricos e interpretativos da religiosidade dos Índios Tuxá”, in Cadernos N° 14, CFCH-UFPA, Belém, 1987. Em outubro de 1988, solicitei e obtive minha aposentadoria regular,  com 30 anos como professor da UFPA e 35, no serviço público como um todo. Retornei à minha casa e ao convívio de minha família em São Paulo.

         Cito, em seguida, os nomes de professores com os quais trabalhei no Grupo de Antropologia e no Laboratório de Etnologia e Etnografia-CFCH-UFPA: Raymundo Heraldo Maués, Maria Angélica Motta Maués, Roberto Cortez de Souza, Eneida Corrêa de Assis, Manoel Alexandre da Cunha, Jane Felipe Beltrão, Laura Saré Ximenes Ponte, Carmen Izabel Rodrigues e Maria Celeste Medeiros.

         O tempo que passei em Belém, nesse meu retorno à atividade na Universidade, no período de 1986-1988, da perspectiva profissional, propiciou-me, predominantemente,  vivências positivas, agradáveis, reconfortantes e estimulantes. É verdade que, ao reingressar na UFPA, não encontrei a unidade universitária da qual eu havia saído, compulsoriamente, mais de 15 anos antes. Eu havia deixado para trás a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na qual, em 1958, eu havia iniciado minhas atividades como professor universitário e onde trabalhei intensamente com dedicação e idealismo. Em 1986, a estrutura da Universidade havia sido reformada e não mais existiam as antigas Faculdades. Desta vez, passei a fazer parte de um agrupamento de rofessores, o Grupo de Antropologia, que integrava o Departamento de História e Sociologia, que, por sua vez, era parte do Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Era outra estrutura, outra organização, outra forma de vínculos e de exercícios profissionais na instituição.

          Por outro lado, eu não tinha, em Belém, a minha família e a minha casa, como no passado. Fui acolhido em sua residência com amizade fraternal e compreensão, durante alguns meses, em dois períodos, por minha irmã Oneide e meu cunhado João Seráfico. Guardo grande gratidão à minha irmã, seu marido e suas filhas, minhas sobrinhas, pelas atenções e demonstração de afeto para comigo. Em outro período mais curto, fui recebido, com atenção e amizade, por meu sobrinho Jaime Seráfico e sua esposa Eloísa, em seu apartamento. Também alimento minha gratidão reconhecida a esses meus sobrinhos. Em outros momentos, habitei em hotéis da cidade, porém, em situações nem sempre adequadamente confortáveis e agradáveis, de vez que seria impossível morar em hotéis por um período longo. Nesta situação, o custo econômico com habitação tornou-se incômodo. Porém, a questão mais sensível, neste período de trabalho em Belém, foi a distância em que se encontrava minha família, em São Paulo, distância que me deixava em sofrido isolamento, deprimido. A falta do acolhimento e da afetividade de minha esposa e de meus filhos e minhas filhas me entristecia. Tão logo completei o tempo de serviço, que me poderia propiciar a aposentadoria regular e legal, requeri da UFPA esse direito, que me foi deferido. Meus agradecimentos à alta administração da Universidade, em especial, ao Reitor José Seixas Lourenço, pelas atenções que me foram dispensadas.
NAEA 

         Não posso deixar de registrar aqui um ato que muito me sensibilizou, tal seja o convite que recebi do colega professor Heraldo Maués, então Diretor do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-NAEA/UFPA, para integrar-me ao corpo docente desta prestigiosa instituição. O processo de minha integração foi instaurado. Porém, optei por incorporar-me ao Grupo de Antropologia. Minha gratidão ao Heraldo Maués pelo convite.

Doze Primeiros Anos Contínuos na FFCL/UFPA

          Durante os quase doze primeiros anos contínuos em que estive em atividade como professor da FFCL-UFPA, em cada ano, eu vinha, no mínimo, uma vez, ao Rio de Janeiro e São Paulo para participar de cursos e/ou de eventos científicos, tais como reuniões da SBPC e outros.

 


[1] O texto antropológico, então, por mim produzido, veio a ser publicado in: Orlando SAMPAIO SILVA – Índios do Tocantins, VALER Ed., Manaus, 2009.

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