P – Eu e a Antropologia do Pará e da Amazônia

          A partir da fase em que fiz meus cursos de pós-graduação em Ciências Sociais (Antropologia), na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (de março de 1964 a dezembro de 65) e fui transferido do Departamento de Educação para o de Ciências Sociais – FFCL/UFPA, em 1965, passei a me dedicar de forma concentrada aos estudos antropológicos. Registre-se que fiz os cursos de pós-graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo na minha condição de professor da FFCL-UFPA, e foi como um antropólogo da Amazônia que defendi a Dissertação de Mestrado nesta instituição. Já em 1966, na VII Reunião Brasileira de Antropologia (da qual integrei a Comissão Organizadora), que fez parte do Simpósio sobre a Biota Amazônica, reunido em Belém, tornei-me sócio da Associação Brasileira de Antropologia-ABA, sendo eu, portanto, um dos mais antigos sócios de nossa entidade profissional. Ao longo dos anos, participei de inúmeras Reuniões nacionais e regionais da ABA, nas quais, na maioria das vezes, organizei e coordenei eventos, e apresentei trabalhos, sendo que um dos mais recentes que coordenei, na 25ª RBA, reunida em  Goiânia de 11 a 14 de junho de 2006, versou sobre a História da Antropologia no Brasil e os demais membros da Mesa foram os colegas Sílvio Coelho dos Santos   – a cuja memória presto minha homenagem -, Roque de Barros Laraia e Cecília Maria Vieira Helm; nesta reunião, realizada no auditório da Reitoria da Universidade Católica de Goiás, encontrava-se no plenário o colega da UFPA professor Heraldo Maués, que, na oportunidade, fez uso da palavra dando seu depoimento como uma contribuição à história da antropologia em sua face paraense. Na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, reunida na UFPA, em Belém, de 1 a 4 de agosto de 2010, coordenei a Mesa Redonda por mim organizada sobre a História da Antropologia na Amazônia; integraram a Mesa, além de mim, os colegas Isidoro Alves, Carlos Marinho Cirino e Roberto Cortez. Como antropólogo da Amazônia e do Pará, participei de três eventos históricos organizados por Sílvio Coelho dos Santos e realizados na UFSC, em Florianópolis, conforme a seguir. Quando as Reuniões da ABA não se estavam realizando, em face das restrições à liberdade de reunião impostas pela ditadura, Sílvio Coelho dos Santos organizou e fez concretizar esses eventos, tais sejam: a 9ª Reunião Brasileira de Antropologia, em 1974, o simpósio “O Índio Perante o Direito”, em 1980 [1], e o simpósio “Sociedades Indígenas e o Direito”, em 1983 [2]. Organizei e coordenei diversas Sessões de Antropologia em Reuniões da SBPC. Aliás, depois de ter participado, como professor da UFPA, na SBPC, de sessões da área de Arqueologia e sobre “a origem do homem americano”, pois não havia sessões de Antropologia Social e Cultural, propus à Assembléia Geral da SBPC reunida em Salvador, Bahia, em 1972, a criação de uma Sessão de Antropologia nas Reuniões Anuais da entidade, proposta que foi aprovada, vindo eu a dirigir as três primeiras Sessões de Antropologia, em Reuniões anuais consecutivas. Continuando, fui tesoureiro da ABINHA/PA-Associação Brasileira de Antropologia/PA  nos anos anteriores à minha aposentadoria compulsória e arbitrária, e fui membro da Comissão do Índio da ABA nacional na gestão de Roque de Barros Laraia na presidência da entidade. Foi na condição de representante da FFCL-UFPA que me dirigi como pesquisador ao segundo grupo indígena entre os quais estive   – os Tiriyó do norte do Pará. Como professor da Faculdade de Filosofia, mesmo antes de passar a ser estagiário na Divisão de Antropologia do Museu Goeldi, mantive com esta instituição científica estimulante intercâmbio e colaboração. Ao ministrar a minha disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais, no Curso de Ciências Sociais, convidei, ao longo dos períodos letivos, antropólogos do Museu Paraense “Emílio Goeldi” para ministrarem palestras para meus alunos sobre metodologia de pesquisa em antropologia e, sobre suas pesquisas de campo. Foi assim que levei à sala de aula na FFCL, os colegas Eduardo Galvão, Édson Diniz, Protasio Frikel e Mário Simões. Como chefe do Dept. de Ciências Sociais, organizei e coordenei, na FFCL, seminários de Ciências Sociais e sobre Estudos Amazônicos, que se realizavam no período noturno e que eram abertos a todos os professores e alunos da Faculdade. Nesses seminários foram palestrantes, além de professores do Curso de Ciências Sociais, como eu próprio e Orlando Costa, Roberto Santos e Amílcar Tupiassu, outros professores, tais como Eduardo Galvão, Armando Bordalo da Silva, Manoel Aires, Napoleão Figueiredo, que abordaram temas referentes às suas pesquisas. Foi na qualidade de antropólogo do Pará e da Amazônia que trabalhei como assessor especial para assuntos indígenas do Ministro Nelson Ribeiro, no MIRAD, quando estive estudando diversos grupos indígenas da Amazônia. Na mesma condição profissional, trabalhei em diversas empresas de planejamento, que prestaram serviços técnicos à SUDAM, tendo, nestas oportunidades, desenvolvido estudos em várias sociedades indígenas do Pará, do Amazonas, de Goiás e de Mato Grosso. Como antropólogo da Amazônia, que desenvolveu pesquisas antropológicas nesta região, fui homenageado pela Associação Brasileira de Antropologia-ABA por indicação dos colegas antropólogos da Universidade Federal de Roraima, Estado em que estudei diferentes grupos indígenas com concentração maior nos Wapixána[3]. Por ocasião da solenidade, realizada na Universidade Federal do Amazonas-UFAM, em que a presidente da ABA, colega Miriam Pillar Grossi, entregou os diplomas aos homenageados: eu e o colega Júlio César Melatti   – tendo este sido indicado pelos colegas da UFAM -, fiz uma palestra sobre minhas atividades no campo da Antropologia, e a colega Jane Beltrão, na condição de professora do Dept. de Antropologia da UFPA, fez um pronunciamento se associando à homenagem a mim prestada. Em minhas pesquisas com grupos indígenas, tanto como professor em atividade quanto na condição de aposentado, priorizei os estudos de sociedades e culturas indígenas do Pará e da Amazônia como um todo. Foi assim que estive estudando os seguintes grupos indígenas amazônicos: Tiriyó, Anambé, Gaviões, Suruí, Xikrín, Parakanán, e Assuriní, no Pará; Tükúna, no Amazonas, e Wapixána, Makuxí, Taurepán e Yanomámi, no Território Federal de Roraima (hoje Estado), sendo que, para a pesquisa nas aldeias Wapixána, ao longo de três anos, contei com bolsa e auxílio do CNPq. Também, como professor da FFCL, estagiário do Museu Goeldi e bolsista (bolsa e auxílio) do CNPq., desenvolvi pesquisa sócio-antropológica em profundidade nas comunidades de japoneses da Zona Bragantina, PA. Foi, portanto,  como um antropólogo do Pará e da Amazônia que desfrutei da bolsa do CNPq. Quando era chefe do Grupo de Antropologia e do Laboratório de Etnologia e Etnografia (CFCH-UFPA), doei ao acervo do Laboratório a Coleção Orlando Sampaio Silva constante de 40 peças ergológicas por mim coletadas em grupos indígenas e três pôsteres com temáticas indígenas (cf. acima). Em minha Dissertação de Mestrado, fui um antropólogo da Amazônia debruçado sobre o estudo dos índios Tuxá, da Bahia. Minha Tese de Doutorado versou sobre a obra do antropólogo Eduardo Galvão, pesquisador que passou a maior parte de sua vida profissional como antropólogo do Museu Goeldi e que, preferentemente, estudou grupos indígenas e caboclos da Amazônia. Mesmo tendo eu, também, estudado grupos indígenas do Nordeste e do Centro-Oeste, a concentração maior das minhas pesquisas e dos trabalhos que publiquei em livros e artigos em periódicos científicos versa sobre a obra de Galvão, e sobre temas teóricos, sobre comunidades não-índias amazônicas e, principalmente, sobre sociedades indígenas da Amazônia, conforme a seguir (trabalhos que são parte de minha bibliografia):

Livros:

        – Eduardo Galvão: Índios e Caboclos. Ed. Annablume, São Paulo, 2007; 

            – TUXÁ: Índios do Nordeste. Ed. Annablume, Selo Universidade, São Paulo, 1997;

            – Índios do Tocantins, VALER Ed., Coleção Memórias da Amazônia, Manaus, 2009;

A Perícia Antropológica em Processos Judiciais. Orlando Sampaio Silva, Lídia Luz e Cecília Maria Helm (Organizadores), ABA-CPI/SP-Ed. da UFSC, Florianópolis, 1994.

Artigos e capítulos de livros:

– “A presença do japonês na Zona Bragantina – Pará”. Edição em língua japonesa dos Anais do Simpósio O Japonês em São Paulo e no Brasil. São Paulo e Tóquio, 1968;

– “Dois conceitos antropológicos”. Rev. de Educação e Letras, Vol. 3 (1 e 2), UFPA, Belém, 1968;

– “O japonês em Santa Isabel do Pará”. Edição em língua japonesa. Anuário V, Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, São Paulo, 1971;

– “Os Tiriyó: Notas sobre uma situação de contacto intercultural”. DÉDALO, n° 13, MAE-USP, São Paulo, 1971;

– “A presença do japonês na Zona Bragantina, Pará”. Cadernos, N° 5, 1ª Série, Volume Especial, Centro de Estudos Rurais e Urbanos-CERU/USP (XXIII Reunião da SBPC), São Paulo, 1972;

– “Floresta Tropical, Isolamento e Comunicação”. Cadernos N° 6, 1ª Série, Centro de Estudos Rurais e Urbanos-CERU/USP, São Paulo, 1973;

– “Territórios Indígenas no Tocantins”, Cadernos Rurais, Centro de Estudos Rurais e Urbanos – USP, n° 7, 1974;

– “O japonês em Santa Isabel do Pará”. Cadernos N° 11, 1ª Série, Centro de Estudos Rurais e Urbanos-CERU/USP, São Paulo, 1978;

– “Os grupos tribais do Território de Roraima”. Revista de Antropologia, USP, Vol. 23, São Paulo, 1980;

– “Os Yanoama”. Rev. de Antropologia, USP, Vol. 24, São Paulo, 1981;

– “O Índio Perante o Direito”. In O Índio Perante o Direito (Ensaios), Sílvio Coelho dos Santos (Org.), Ed. Da UFSC, Florianópolis, 1982;

– “Sociedade Wapixána: Ritos e Mitos”. Rev. do Museu Paulista – USP, NS, Vol. XXX, São Paulo, 1985;

– “Os povos indígenas e o Estado Brasileiro”. In Sociedades Indígenas e o Direito: Uma questão de Direitos Humanos – Ensaios. Sílvio Coelho dos Santos, Dennis Werner, Neusa Sens Bloemer, Aneliese Nacke (organizadores), Ed. UFSC-CNPq., Florianópolis, 1985;

– “Notas sobre algunos pueblos indígenas de la frontera amazônica de Brasil con otros paises de Sudamerica”. ETNOHISTORIA DEL AMAZONAS, P. Jorna, L. Malaver, M. Oostra (Coordinadores), 46° Congreso Internacional de Americanistas, Amsterdam; Fundación de Investigación Social Latinoamericana, Nijmegen – Ed. Abya-Yala, Quito – MLAL-Movimiento Laicos para América Latina, Roma, 1991;

– “Herbert Baldus: Vida e Obra – Introdução ao indigenismo de um americanista teuto-brasileiro”. Rev. do Mus. de Arqueologia e Etnologia –MAE/USP, N° 2, São Paulo, 1992;

– “Pesquisa Antropológica de Urgência: Conceituações”. Bulletin of the International Committee on Urgent Anthropological and Athnological Research, UNESCO-International Council for Philosophy and Humanistic Studies, Vienna, 1992-1993;

– “Rousseau: Precursor ou fundador da Etnologia?”. APG Revista, Ano II, N/ 3, Ass. dos Pós-Grad. da PUC-SP, São Paulo, 1993;

– “A ‘Antropologia Prática’ de Emmanuel Kant: Considerações a propósito da II Parte desta obra no entrecruzamento do pensamento do autor com o de Rousseau”. APG Revista, Ano II, N° 4, Ass. dos Pós-Grad. da PUC-SP, São Paulo, 1993;

– “Diversidade sócio-cultural: Enfoques teóricos e realidade empírica”. In Documento de Trabalho, UNESCO – Universidade Central de Venezuela, Caracas, 1993;

– “Diversidade Sócio-cultural: Particularização e Universalização em um contexto de complementaridade na identidade coletiva – Considerações metodológicas e ético-sociais”. In Teoria y Política de la Construcción de Identidades y Diferencias en América Latina y el Caribe, Daniel Mato (Coord.), UNESCO – Ed. Nueva Sociedad, Caracas, 1994;

– “O que temos a aprender com sociedades indígenas sobre relações com o meio ambiente”. APG Revista, Ano III, N° 6, Ass. dos Pós-Grad. da PUC-SP, São Paulo, 1994;

– “Urgent Anthropological Research and Indian People’s Rights in Face of States”. In Five Hundred Years After Columbus: Proceedings of the 47th International Congress of Americanists. Compiled by E. Wyllys Andrews V and Elizabeth Oster Mozillo, Middle American Research Institute, Tulane University, New Orleans, 1994;

– “Brasil: Estado Pluralista”. In Law & Anthropology, 8, René Kuppe e Richard Potz (eds.), Martinus Nijhoff Publishers, The Hague, Boston/London, 1996;

– “Demarcação de Terras Indígenas e a Perícia Antropológica Judicial como um dos instrumentos”. In Energia na Amazônia, dois Vols. Sônia Barbosa Magalhães, Rosyan de Caldas Brito e Edna Ramos de Castro (orgs.). CNPq.-Mus. Par. “Emílio Goeldi”, Universidade Federal do Pará e Associação de Universidades Amazônicas, Belém, 1996;

– “Milenarismo Tükúna e na sociedade não-indígena do Alto Solimões”. In Resistência y Adaptación nativas en las Tierras Bajas Latinoamaricanas. Maria Susana Cipolletti (Coordinadora), Ediciones ABYA-YALA, Quito, 1997;

– “Participação de grupos indígenas em atividades econômicas da sociedade dominante na Amazônia Brasileira”. Revista da APG, Ano VI, n° 2, Ass. dos Pós-Grad. da PUC-SP, São Paulo, 1997;

– “Identidade Étnica e Globalização”. In Antropologia, Memória, Tradição e Perspectiva – V Encontro de Antropólogos do Norte-Nordeste. Maria do Carmo Brandão, Roberto Motta, Antônio C. Motta (Orgs.). Revista Antropológicas, Pós-Graduação em Antropologia da UFPE, Ano III, Vol. 7, Série Anais, Recife, 1998;

– “O sentido estético na produção de exemplares artísticos de alguns povos indígenas: Projeto de Estudo”. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia-MAE, USP, N° 9, São Paulo, 1999;

– “Os Wapixána: Síntese de uma situação de contato inter-étnico”. Bullettin of the International Committee on Urgent Anthropological and Ethnological Research – IUAES, N° 40, Viena, 1999 – 2000;

– “Máscaras de Dança Tükúna”. Rev. do Mus. de Arqueologia e Etnologia-MAE, USP, N° 10, São Paulo, 2000;

– “O trabalho indígena no Brasil”. In Presente e Futuro das Relações de Trabalho: Estudos em homenagem a Roberto Araújo de Oliveira Santos. Georgenor de Sousa Franco Filho (Coord.), Ed. LTD, São Paulo, 2000;

– “O antropólogo Herbert Baldus”. Rev. de Antropologia, Vol. 43, n° 2, São Paulo, 2000;

– “Máscaras de Dança Ritual Tükúna”. Bulletin of the International Committee on Urgent Anthropological and Ethnological Research-IUAES, N° 42-43, Viena, 2003-2004;

– “Pronunciamento”. In Homenagens – Associação Brasileira de Antropologia 50 Anos. ABA (O texto “Pronunciamento” contém duas partes: 1 – Minhas Pesquisas; 2 – Terminologia de Parentesco e Sistema de Parentesco Wapixána). Florianópolis, 2006;

– “Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras”. In UFPA 50 Anos – Relatos de uma Trajetória, Ed. Universitária, UFPA, (Neste texto de minha autoria constam duas partes a saber: I) “Diretores da FFCL até 1969”; II) “O Ensino de Antropologia na FFCL até 1969”), Belém, 2007;

– “Os Wapixána: Uma situação de contato interétnico”. Revista do Núcleo Histórico Sócioambiental, NUHSA – Universidade Federal de Roraima-UFRR, Vol. 01, N° 01, Boa Vista, outubro de 2007.


[1] Cf. O Índio Perante o Direito (Ensaios), Sílvio Coelho dos Santos (org.), Ed. da UFSC, Florianópolis, 1982. Capítulo de minha autoria: “O Índio Perante o Direito”.

[2] Cf. Sociedades Indígenas e o Direito – Uma questão de direitos humanos, Ensaios, Sílvio Coelho dos Santos, Dennis Werner, Neusa Sens Bloemer, Aneliese Nacke (orgs.), Ed. da UFSC – CNPq., Florianópolis, 1985. Capítulo de minha autoria: “Os povos indígenas e o Estado Brasileiro”.

[3] Ver “Homenagens – Associação Brasileira de Antropologia 50 Anos”, Cornélia Eckert e Emília Pietrafesa de Godoi (orgs.), ABA – Nova Letra Ed., Florianópolis, 2006.