U – Trabalhos dos Pais

         Em 1971, a Edith, ainda professora licenciada da UFPA, foi a Belém, onde prestou concurso, sendo aprovada para a função de Professora Adjunta da Universidade Federal do Pará. Pouco depois, deixou a UFPA, e, conforme acima, ingressou como professora na Faculdade de Medicina da USP.

         Edith cursou e se formou em Médica de Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

         Em S. Paulo, Edith instalou consultório médico particular de psiquiatria e psicoterapia, deixou de trabalhar no hospital psiquiátrico INSA e ingressou, como médica psiquiatra, no corpo profissional de saúde do Hospital do Servidor Público do Estado.

         Depois, saiu deste emprego e, em 1974, ela e eu, em sociedade com Zélia, enfermeira, e com Georgina, psicóloga, fundamos uma instituição – “A Vivenda”-Residência Protegida, para tratamento de pacientes psiquiátricos e para o acolhimento e atenção médica de idosos. A Edith era a diretora clínica da instituição que fundáramos, a sócia  Zélia  era a coordenadora da área de enfermagem, a sócia Georgina coordenava a área de psicologia e eu era o diretor administrativo. Edith trabalhou nesta entidade durante os seis anos seguintes, e eu, durante sete anos. Após estes períodos, saímos da sociedade, vendemos as nossas quotas.

         Eu, durante algum tempo, fui professor de Antropologia da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A Edith trabalhou no Centro Comunitário de Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Sto. Amaro e, durante alguns anos, na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo; também, por certo tempo, foi professora da PUC/SP e, mais tarde, mediante concurso, ingressou no quadro de professores da Fundação Getúlio Vargas-FGV/SP. Edith foi bolsista do CNPq.  Presentemente se encontra aposentada na USP e, tendo saído da FGV/SP, aposentou-se pelo INSS.

CEBRAP

         Em 1971, tendo eu saído da ASPLAN (ver acima), passei a trabalhar, na condição de bolsista, no CEBRAP-Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, a convite do presidente da entidade professor Cândido Procopio Ferreira de Camargo. No CEBRAP  trabalhavam Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni, Arthur Giannotti, Elsa Berquó, Juarez Brandão Lopes, Paul Singer, Beatriz Muniz de Souza, Francisco (Chico) de Oliveira, Francisco Weffort, Leôncio Martins Rodrigues, Lúcio Kowarick e outros importantes sociólogos, filósofos, antropólogos, economistas e demógrafos paulistas. O CEBRAP é uma entidade que foi criada por professores que haviam sido, como eu, punidos com a aposentadoria compulsória pelo regime militarista. Alguns dos professores fundadores do CEBRAP, a quando da instituição da nova entidade, em 1969, estavam trabalhando no CEDIP-Centro de Estudos de Dinâmica Populacional, da Faculdade de Saúde Pública da USP. O diretor do CEDIP era o sociólogo Cândido Procópio Ferreira de Camargo. A convite do diretor, eu, então, encontrava-me fazendo um estágio na instituição (cf. acima). O CEDIP, certamente, foi a célula mater de onde brotou o CEBRAP, tendo sido Procópio a figura fundamental na estratégia institucional que permitiu a fundação desta entidade. Fernando Henrique Cardoso, também deu sua importante contribuição instituidora. No CEBRAP, participei como pesquisador de alguns projetos de pesquisa, um dos quais sobre a religião pentescostalem São Paulo, outro sobre os menores carentes internados em instituições de São Paulo e Rio de Janeiro. Este último e importante projeto foi desenvolvido pelo CEBRAP por solicitação do Tribunal de Justiça de São Paulo. Em plena ditadura militar, ele também foi um teste da possibilidade de nossa entidade, naquela conjuntura, ter condições efetivas de prestar um serviço especializado a uma entidade pública. Desta pesquisa decorreu a publicação do livro “A Criança, o Adolescente, a Cidade”, CEBRAP-Tribunal de Justiça de São Paulo, S. Paulo, 1972, cujos autores são Octávio Ianni [coordenador da pesquisa], Lúcio Kowarick, Rosa Krausz e Orlando Sampaio Silva (eu próprio). Este foi o primeiro projeto do CEBRAP financiado por um órgão público, o Juizado de Menores de São Paulo.

SERETE; Hidroservice

         Em 1972, fui contratado, como técnico da SERETE, por indicação do colega Roberto Santos, que, então, já era técnico da empresa. A SERETE era uma grande empresa de planejamento particular. Trabalhei até 1974 nesta empresa assim como, na DS-Desenvolvimento e Sistema (sendo esta também uma empresa de planejamento que foi instituída em decorrência de uma cisão na SERETE). Em 1975, convidado pelo sociólogo José Albertino Rodrigues, passei a trabalhar como consultor da HIDROSERVICE, outra importante empresa particular de engenharia e planejamento. No tempo em que trabalhei nessas empresas, realizei estudos e pesquisas de campo tais como, entre outros e outras: – uma pesquisa em profundidade sobre a pesca artesanal na Amazônia (de São Luis do Maranhão a Manaus, incluindo Belém, Cametá, região do Salgado e Santarém, no  Pará, e Macapá);  – outra pesquisa sendo esta sobre terras indígenas e situações de contacto de diversos grupos indígenas com a sociedade nacional na Amazônia; – desenvolvi um extenso estudo sobre a legislação de terras nas diversas unidades administrativas da Região; – realizei pesquisas etnológicas nos grupos indígenas Gavião, Xikrín, Suruí, Parakanán e Assuriní, no Vale do Rio Tocantins, Pará[1]; – procedi a um estudo piloto de campo sobre a existência ou não de sociedades indígenas na floresta da área dos rios da Esquerda, do Meio e da Direita, tributários pela margem esquerda do Rio Tocantins, Pará; – desenvolvi estudos antropológicos sobre as repercussões da construção da Hidroelétrica de Itaparica, no Médio Rio São Francisco, sobre as sociedades dos índios Pankararú (Pernambuco) e Tuxá (Bahia)[2] etc. Nesses diversos trabalhos de pesquisa para essas instituições, viajei muito pelos rios, morros, estradas, florestas, caatinga, campos, vilas e cidades da Amazônia Brasileira e do Nordeste.

         Na primeira metade dos anos 80, tornei-me bolsista do CNPq., tendo, nesta condição, desenvolvido, primeiramente, um projeto de pesquisa sócio-antropológica em meio às comunidades de japoneses da Zona Bragantina, no Pará; em seguida, passei a uma abordagem em antropologia social nas aldeias-grupos locais dos índios Wapixána, de Roraima. Estas pesquisas me propiciaram a possibilidade da publicação de alguns artigos em livros e revistas acadêmicas.[3]

MIRAD

No início de 1985, convidado pelo Ministro Nelson Ribeiro, fui contratado como seu assessor especial para assuntos indígenas, no MIRAD-Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. Nesta função, durante mais de um ano, morando em Brasília, assessorei o Ministro, e fui presidente ou coordenador de várias Comissões e Grupos de Trabalho Interministeriais. Aquelas e estes sempre estiveram voltados para as questões dos conflitos de terras entre sociedades indígenas e parcelas da sociedade nacional. No desempenho dessa função, visitei diversos grupos indígenas na Amazônia, no Centro-Oeste e no Nordeste, tendo procedido negociações entre as partes em conflito na questão de terras e em outros problemas. No MIRAD, também, nos últimos meses em que lá estive, organizei e coordenei o setor dos brasiguaios, tendo estado, nesta função, no Paraguai, a serviço do governo brasileiro. Foi uma fase extremamente importante em minha vida profissional.

 

Anistia e Retorno à Atividade na UFPA. Aposentadoria

Desde setembro de 1969 e durante todo esse longo período de residência em São Paulo(e, cf. acima, em Brasília), eu me encontrava aposentado[4], situação funcional a que fui levado pelo governo militarista, conforme narrei páginas acima. Finda a ditadura, em 1985, fui chamado pelo Reitor da UFPA, Prof. José Seixas Lourenço, a reassumir minha função na Universidade, o que de fato aconteceu. Meu retorno à Universidade ocorreu durante a fase em que eu me encontrava trabalhando no MIRAD. Reassumi minha função na UFPA e fui de imediato colocado pelo Ministério da Educação à Disposição do MIRAD, a fim de que eu pudesse continuar o trabalho que estava realizando neste Ministério. Em 1986, tendo o ministro Nelson Ribeiro saído do Ministério, eu retornei à UFPA, onde fiquei até 1988. Neste período em que estive de volta à UFPA, integrei o corpo de professores de antropologia e fui Chefe do Grupo de Antropologia e do Laboratório de Etnologia e Etnografia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Neste tempo ainda não havia o Departamento de Antropologia (detalhes sobre o meu retorno à atividade na UFPA, cf. acima). Em outubro de 1988 pedi e obtive minha aposentadoria regular por tempo de serviço.


[1] Dessa pesquisa adveio a publicação do livro: Orlando SAMPAIO SILVA – Índios do Tocantins. Ed. VALER, Manaus,  2009.

[2] Também, em decorrência desses estudos de  campo, publiquei: Orlando SAMPAIO SILVA – TUXÁ: Índios do Nordeste. Ed. AnnaBlume, São Paulo, 1997.

[3] Entre esses artigos: Orlando SAMPAIO SILVA – “A Presença do Japonês na Zona Bragantina, Pará”, CADERNOS, Centro de Estudos Rurais e Urbanos-CERU/USP, São Paulo, 1972, e “Sociedade Wapixána: Ritos e mitos”, Rev. do Mus. Paulista-USP, NS, Vol. XXX, São Paulo, 1985.

[4] – Ganhando o salário correspondente, de acordo com a legislação revolucionária.